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COMO O BRASIL CONSEGUIRÁ SUPERAR SÉCULOS DE UMA CULTURA PATERNALISTA, DIRIGISTA E ESTATIZANTE?

Por Vinícius Montgomary, publicado pelo Instituto Liberal

O Índice de Liberdade Econômica (ILE) da Heritage Foundation, publicado recentemente, mostra que, infelizmente, em 2018, o Brasil regrediu 13 posições em relação ao ranking de 2017. Esse índice funciona como um termômetro que mede o grau de liberdade concedido aos agentes econômicos para que tomem decisões no seu dia a dia, sem a interferência do Estado. O ranking desse ano avaliou 180 países em doze quesitos considerados para a sua formação: direito de propriedade, integridade do governo, eficiência judicial, gastos do governo, carga tributária, saúde fiscal, liberdade comercial, liberdade de trabalho, liberdade monetária, liberdade de comércio exterior, liberdade de investimento e liberdade financeira. Todos os quesitos são avaliados de 0 a 100 e têm o mesmo peso no resultado final. Em 2018, o Brasil alcançou a pontuação de 51,4, ficando atrás de 152 países considerados de maior liberdade econômica. Espanta saber, por exemplo, que países como Etiópia, Haiti, Gana e a maioria absoluta dos vizinhos sul-americanos possuem ambientes de negócios menos hostis que o brasileiro. É por isso que criar riqueza no Brasil – papel de empreendedores e seus colaboradores – tem virado missão para heróis. Tarefa muito mais fácil é arrumar uma boquinha para se locupletar da máquina estatal. Afinal, cabide de emprego arranjado por políticos irresponsáveis não costuma faltar nesse país.

Por que a liberdade de iniciativa é tão importante? Ao se observar a história econômica das nações, não é difícil constatar que a prosperidade anda lado a lado com a liberdade para empreender. A livre iniciativa permite que soluções criativas e inovadoras para os problemas da sociedade sejam mais facilmente encontradas, descomplicando a vida das pessoas e das empresas. Novos negócios surgem das oportunidades detectadas pelos empreendedores mais atentos e talentosos; a produção aumenta, novos empregos são gerados e o nível de renda se eleva, aumentando a prosperidade geral da nação. Nesse caso, indicadores de qualidade de vida como o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano avançam, retratando a transformação do cotidiano da população. Até mesmo o Estado se beneficia com o aumento da arrecadação de tributos, sem que para isso seja preciso elevar a carga tributária. Estudos recentes, como o do economista Guilherme Azevedo, mostram a alta relação entre a qualidade de vida (IDH) e o grau de liberdade econômica (ILE). Enquanto as populações de países com maior liberdade econômica não sofrem de restrição alimentar e desfrutam de um bom nível de educação, saúde e segurança, além do conforto proporcionado por bens tecnológicos, as dos países de menor liberdade sofrem os efeitos nefastos do gigantismo estatal.

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Muito se discute sobre quais deveriam ser as atribuições de um Estado. Os liberais acreditam que o Estado deve ter atuação limitada, restringindo-se tão somente a manter a ordem e garantir que as leis funcionem. Dessa forma, seria possível garantir igualdade de oportunidades, com os indivíduos alcançando resultados em função de seus próprios esforços; sem comprometimento da liberdade de ação. É exatamente por isso que o filósofo austríaco Friedrich Hayek destaca que existe uma enorme diferença entre a igualdade de oportunidades e aquela “igualdade” imposta pela interferência estatal. O economista espanhol Daniel Lacalle afirma que não há injustiça e desigualdade maior que o igualitarismo imposto pelo Estado, que elimina os incentivos para o aprimoramento próprio, comprometendo, portanto, a produtividade, que é fator chave para gerar riqueza.

Para John Locke, filósofo inglês, conhecido como pai do liberalismo, a formação de um governo deve ser consentida pelos governados, e respeitar o direito natural do homem à vida, à propriedade e à liberdade. Em seu ponto de vista, a sociedade apenas delega poderes a um Estado, que deve através de um contrato social, assegurar seus direitos naturais. Se o Estado não respeita esses direitos, visando interesses particulares e não o bem comum forma-se um governo tirano, contra o qual os indivíduos deveriam resistir. Thomas Hobbes, por sua vez, em Leviatã, defende a existência de um governo central forte. A centralização de poder estatal inibiria o caos ou a guerra civil, uma vez que, para Hobbes, os homens são egoístas por natureza e, por isso, tendem a guerrear todos contra todos (Bellum omnia omnes). Assim, diante da escassez de recursos, e da inexistência de um governo e de leis, os homens naturalmente mergulhariam na discórdia. Nesse estado de guerra, gerado pela inexistência do poder centralizado, o trabalho produtivo se torna impossível e não há condições nem tranquilidade suficiente para a busca pelo conhecimento e pelo progresso. A motivação para criar, construir e inovar desapareceria. Acemoglu e Robinson, em Por Que As Nações Fracassam, concordam que a centralização de poder é condição necessária para a prosperidade das nações, mas não suficiente. Esses autores mostram que, historicamente, nações sem as Instituições Inclusivas, que garantam o direito de propriedade e a liberdade de ação de empreendedores, têm seu crescimento econômico limitado e uma elevada concentração de renda.

Para o jurista Dalmo Dallari, a mudança da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, acelerou o processo de formação do Estado brasileiro, que teve seu nascimento formal em 1815, quando o país deixou a categoria de Colônia para se tornar Reino, unido aos de Portugal e de Algarves. Alguns anos depois, em 1824, desponta a primeira Constituição brasileira. Seu ordenamento jurídico é resultado da ação direta de D. Pedro I contra uma parte dos constituintes que desejavam uma monarquia; que delimitasse o poder do imperador, conforme o modelo de Estado idealizado por Locke. O Estado brasileiro nascia, portanto, absolutista, com o governo controlando atividades políticas e econômicas, e espaço limitado para a liberdade de iniciativa. A formação da burocracia estatal brasileira, após a independência, surgiu de um misto de meritocracia e relacionamentos pessoais de apadrinhamento, sendo contaminada pela patronagem, isto é, a distribuição de empregos públicos para garantir apoio político e social ao regente.

A tradição de concentração do poder estatal se intensifica com a outorga da Constituição de 1937, de inspiração fascista. Esta concedia poderes ilimitados ao presidente-ditador, Getúlio Vargas, que institui a legislação trabalhista (CLT) e políticas sociais excessivamente paternalistas e intervencionistas. Mais uma vez perdem espaço a livre iniciativa, a meritocracia e o empreendedorismo. Algumas décadas mais tarde, apesar do surto de crescimento econômico, que transcorreu na primeira metade do governo militar (1964-1985), a economia brasileira continuava defasada tecnologicamente, fechada ao comércio internacional, e alicerçada na formação de oligopólios e no dirigismo estatal. A celebrada redemocratização do Brasil e sua última Constituição, a de 1988, completa, então, séculos de restrição à liberdade de iniciativa. Praticamente em nenhum momento da história do país se percebe um governo de viés pró-mercado. A cultura anticapitalista de privilégios para grupos de interesses, proteção a setores industriais pouco competitivos, oposição à meritocracia e à modernização da gestão pública e o assistencialismo populista, que reforça a dependência estatal de grandes contingentes da população, aprisiona o país do futuro de forma quase que definitiva à armadilha da renda média. Nem as crises da hiperinflação dos anos de 1980, tampouco a grave crise econômica recente, parecem ter despertado a nação para a lição manifestada por James Madison (um dos pais fundadores da Constituição dos Estados Unidos de 1789), de que uma constituição deve habilitar o governo a controlar os governados; e em seguida obrigá-lo a controlar a si mesmo.

Os constituintes que formularam a Constituição cidadã, de 1988, foram pródigos em multiplicar “direitos”, sem se preocupar com o impacto dessa garantia constitucional à saúde fiscal do país. O Estado não deveria ter assumido a responsabilidade de prover condições materiais básicas aos indivíduos como educação, saúde, segurança e aposentadoria integral ao funcionalismo público, por exemplo, entre outros direitos, sem as fontes de recursos suficientes para fazer frente ao aumento dos gastos públicos, decorrentes dessas garantias. A consequência de uma Constituição tão detalhista (a Constituição brasileira é a terceira mais extensa do mundo e a décima em direitos constitucionais, conforme o Comparative Constitutions Project) e dirigista como a brasileira é o inchaço do Estado. Por isso, tem-se o excesso de burocracia e regulações, além de uma carga tributária sufocante para a iniciativa privada, na tentativa de efetivar os serviços previstos na lei.

Como o poder foi capturado por castas de funcionários públicos, sindicalistas, partidos políticos, grupos de interesses e lobbies corporativos que desejam ampliar “direitos” múltiplos, como auxílio-moradia, estabilidade de emprego, contribuição sindical obrigatória, indexação salarial, crédito subsidiado e aposentadoria precoce; na prática, não é possível garantir a todos, os direitos prometidos na carta constitucional. Ocorre então o que o economista americano Lawrence Reed chama de a contraposição entre um direito e um privilégio. Isto é, se um direito constitucional é efetivo para alguns e ao mesmo tempo é negado a outros, ele deixa de ser um direito e passa a ser um privilégio. Assim, a lei que pretendia fazer justiça acaba por disseminar a injustiça. Perde-se o sentido da existência do Estado, que Thomas Hobbes visualizou como a solução para a guerra de todos contra todos. Retorna-se à barbárie, onde o Estado não apenas deixa de cumprir sua função social como passa a ser patrocinador das injustiças que supostamente deveria eliminar.

O favoritismo aos grupos que estão próximos ao poder, criado por regras ou leis protecionistas, reforça os oligopólios, expande os gastos públicos, concentra renda, engessa a eficiência, enclausura a liberdade de iniciativa e cria barreiras ao empreendedorismo. Se a força econômica se associa aos detentores do poder para manter o status quo, acaba por afastar qualquer possibilidade de renovação política e florescimento do capitalismo. É exatamente isso que Acemoglu e Robinson chamam de uma nação de Instituições Extrativistas. O resultado é o subdesenvolvimento, com piora na qualidade de vida dos cidadãos. No Brasil, os tentáculos do Leviatã estatal são tantos, que como escreve Rodrigo Constantino no livro Privatize Já, privatizar estatais não é mais suficiente para modernizar o país. Perdem os consumidores e trabalhadores, lucram os amigos do rei que usam toda sua força e influência para manter privilégios à custa daqueles. No fim, a população paga caro para sustentar um nacionalismo infantil que gera preços elevados e menor eficiência em nome do interesse nacional.

Estudiosos renomados como Douglass North, Daron Acemoglu e Robert Cooter mostram em suas pesquisas a correlação entre o ambiente institucional e o desenvolvimento econômico e social. Regulamentos essenciais para o progresso social, como o respeito aos contratos e à propriedade privada, a segurança jurídica, a previsibilidade das ações de um governo enxuto e a liberdade para trabalhar, criar e empreender são condições essenciais para a produtividade de uma economia, sendo este fator fundamental para o aumento das condições materiais de uma sociedade e para a melhoria da qualidade de vida.

A grande questão que fica é como seria possível ao Brasil superar séculos de uma cultura paternalista, dirigista e estatizante? Já no século VIII A.C., o profeta Oseias afirmava que o povo padece por falta de conhecimento. Não difere muito do mundo atual, ainda que a informação e o conhecimento tenha se multiplicado. No currículo das escolas brasileiras de ensino fundamental, conteúdos básicos como os de economia, finanças pessoais, empreendedorismo e a ética do trabalho são taxativamente ignorados. Raramente existe a preocupação em relacionar a educação dos jovens com sua futura vida profissional. Multiplicam-se os cursos preparatórios para os candidatos a concursos públicos, enquanto a prática empreendedora é relegada a aventureiros. A meritocracia é solenemente ignorada em nome da igualdade a qualquer custo. Boa parte dos cursos superiores no Brasil são amplamente dominados por professores simpatizantes do marxismo. O ensino jurídico brasileiro estimula a cultura do intervencionismo e do dirigismo contratual, conforme descrito pelo professor de direito empresarial e econômico André Luiz Ramos. Muitas vezes o jornalismo ignora fatos em benefício de patrocinadores ou da classe artística próxima ao poder. Por todos esses obstáculos ao desenvolvimento do país, merecem admiração os blogs, sites, canais, autores e pesquisadores que tentam romper as barreiras culturais que prendem esse rico país ao atraso ideológico, que no final das contas, mantém privilégios à custa da maioria silenciosa que paga a conta.

Sobre o autor: Vinícius Montgomery de Miranda é formado em Engenharia Elétrica na Universidade Federal de Itajubá. Possui MBA em Gestão Financeira na UNITAU. É Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Itajubá e professor no INATEL e na FAI (Santa Rita do Sapucaí)

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A CONSPIRAÇÃO EUGÊNICA DO SALÁRIO MÍNIMO

Em sua “Carta de uma prisão em Birmingham”, Martin Luther King Jr. identifica o Estado como inimigo dos direitos e dignidade dos negros. Ele foi preso por fazer um protesto sem permissão. King cita as injustiças da polícia e dos tribunais em particular. E ele inspirou um movimento para abrir a consciência pública contra a brutalidade do Estado, especialmente por envolver mangueiras de incêndio, cassetetes, e cadeias. Martin Luther King preso em 1969 e sentenciado a 45 de prisão.
Martin Luther King foi sentenciado a 45 dias de prisão em 1963.

Menos óbvio, entretanto, foi o papel de métodos mais sutis de subjugação – formas de coerção estatal profundamente incorporadas na lei e na história dos Estados Unidos. E foram oferecidos como políticas baseadas na ciência e no gerenciamento científico da sociedade.

Considere o salário mínimo. Quanto o racismo tem a ver com isso? Muito mais do que a maioria das pessoas percebe. Um olhar cuidadoso na sua história mostra que o salário mínimo foi originalmente concebido como parte de uma estratégia eugênica – uma tentativa de desenvolver uma raça superior através de uma política pública projetada para remover indesejáveis da sociedade. Para aquele fim, o Estado teria que isolar, esterilizar, e exterminar as populações desprivilegiadas.

O movimento eugênico – quase universalmente apoiado por jornais populares e estudiosos nas primeiras décadas do século XX – ocorreu como uma reação às dramáticas mudanças demográficas da segunda metade do século XIX. Salários subiram e a expectativa de vida cresceu como nunca antes na história. Tais ganhos se aplicaram a todas as raças e classes. A mortalidade infantil desabou. Tudo isso foi devido à massiva expansão do mercado, à tecnologia, e ao comércio. E isso mudou o mundo. Significou uma dramática expansão da população entre todos os grupos. As grandes massas indesejadas estavam vivendo mais e se reproduzindo mais rápido.

Isso preocupou a elite política branca na maioria dos países europeus e nos EUA. Como John Carey documentou em “Os intelectuais e as massas” (1992), todos os fundadores da cultura da literatura moderna – de H.G. Wells a T.S. Eliot – detestaram a nova prosperidade e muitos falaram a favor da exterminação e da limpeza racial para pôr um fim à nova demografia emergente. Como Wells resumiu, “a quantidade extravagante de novos nascimentos foi o desastre essencial do século XIX”.

O movimento eugênico, como uma aplicação do princípio da “sociedade planejada”, era hostil ao livre-mercado. Como o The New Republic resumiu em um editorial em 1916:

Imbecilidade produz imbecilidade tanto quanto galinhas brancas produzem galinhas brancas; e sob o sistema de laissez-faire, à imbecilidade é dada a chance para reproduzir, e de fato o faz a uma taxa muito superior àquela das pessoas superiores.

Para conter todas as tendências lançadas pelo capitalismo, os estados e o governo federal começaram a implementar políticas para o incentivo de classes e raças “superiores” e desencorajar a procriação das “inferiores”. Como explicado por Edwin Black em 2003, em seu livro Guerra contra os fracos: eugênicos e a campanha americana para criar uma raça superior, o objetivo em relação às mulheres e crianças era o de exclusão, mas aos não-brancos era essencialmente o de exterminação. Os métodos escolhidos não eram esquadrões de fuzilamento e câmaras de gás, mas os métodos mais pacíficos e delicados de esterilização, exclusão de trabalho e segregação coercitiva.

Trabalhadores protestando pela criação do salário mínimo em Massachusetts em 1912
Trabalhadores protestando pela criação do salário mínimo em Massachusetts (EUA) em 1912.

Foi durante esse período e por essa razão que vimos o primeiro experimento com o salário mínimo em Massachussets1 em 1912. A nova lei se referia somente a mulheres e crianças como uma medida para desempregá-las e a outros “dependentes sociais” da força de trabalho. Embora a medida tenha sido pequena e não muito forçada2, ela de fato reduziu o emprego entre os grupos citados.

Para entender por que isso não foi visto como uma falha, dê uma olhada nas primeiras discussões modernas do salário mínimo aparecendo na literatura acadêmica. A maioria desses manuscritos foi completamente esquecida, exceto por um artigo de 2005 noJournal of Economic Perspectives por Thomas C. Leonard.

Leonard documenta uma série de artigos e livros alarmantes aparecendo entre 1890 e 1920 que eram bem explícitos sobre uma variedade de leis que tentavam expulsar pessoas da força de trabalho. Esses artigos não foram escritos por figuras marginais ou radicais, mas por líderes da profissão, autores de grandes livros didáticos, e líderes de opinião que formavam a política pública.

“Economistas progressistas, como seus críticos neoclássicos,” Leonard explica, “acreditavam que atrelando salários mínimos causaria perda de empregos. Entretanto, os economistas progressistas também acreditavam que o trabalho perdido induzido pelo salário mínimo seria um benefício social, por atender ao ideal eugênico, eliminando os ‘não empregáveis’ da força de trabalho.”

Pelo menos os eugênicos, com todas as suas bobagens pseudocientíficas, não eram ingênuos sobre os efeitos do piso salarial. Hoje em dia, você pode contar com a mídia e incontáveis políticos para proclamar o quão maravilhoso o salário mínimo é para os pobres. O salário mínimo melhora a qualidade de vida, dizem eles.

Em 1912, eles entendiam melhor – o salário mínimo exclui trabalhadores – e eles eram a favor precisamente porque o salário mínimo exclui as pessoas do mercado de trabalho. Pessoas sem trabalho não podem prosperar e, portanto, são desencorajadas de se reproduzirem. O salário mínimo foi projetado especificamente para purificar a paisagem demográfica de raças inferiores e manter as mulheres às margens da sociedade.

O famoso socialista fabiano Sidney Webb foi bem franco em seu artigo de 1912 “A teoria econômica do salário mínimo”:

O salário mínimo legal aumenta a produtividade da indústria nacional, assegurando que o excedente de homens desempregados será exclusivamente a parcela menos eficiente dos trabalhadores; ou, em outras palavras, assegurando que todas as vagas serão preenchidas pelos trabalhadores mais eficientes que estão disponíveis.

A história intelectual mostra que todo o propósito do salário mínimo era criar desemprego entre as pessoas que as elites não acreditavam serem merecedoras de trabalho.

E fica pior. Webb escreveu:

Qual seria o resultado de um salário mínimo legal no teimoso desejo do empregador em usar o trabalho de um menino, de uma menina, de uma mulher casada, de um idoso, de pessoas com problemas mentais, de pessoas fracas e deficientes, e todas as outras alternativas ao emprego de homens adultos pelo salário integral? Resumindo, esse tipo de trabalho é parasitário das outras classes da comunidade, e existe apenas por ser parasitário.

Mais adiante, Webb declara: “o trabalhador não-empregável, francamente, não consegue sob qualquer circunstância ganhar seu sustento. O que temos que fazer com eles é garantir que o mínimo possível deles seja gerado.”

Apesar de Webb estar escrevendo sobre a experiência no Reino Unido, e o seu foco fosse manter as classes mais baixas longe da prosperidade, suas visões não eram incomuns. O mesmo pensamento estava vivo no contexto dos EUA, mas foram as raças e não as classes que se tornaram um fator decisivo.

Henry Rogers Seager da Universidade de Columbia, e depois presidente da American Economic Association3, escreveu em “Teoria do salário mínimo” publicado na American Labor Legislation Review em 1913: “A operação de exigência de um salário mínimo meramente estenderia a definição de incapaz para englobar todos aqueles indivíduos que, mesmo tendo recebido treinamento especial, permanecem incapazes de se sustentarem adequadamente.”

Escreveu, ainda: “Se vamos manter uma raça que seja composta por indivíduos e famílias capazes, eficientes, e independentes, devemos corajosamente eliminar as linhas hereditárias que se provaram ser indesejáveis por isolamento ou esterilização.”

charge salário mínimo
Isolamento e esterilização da população menos desejável são formas lentas de exterminação. O salário mínimo era parte desse programa. Era seu propósito e intenção. Os formadores de opinião de cem anos atrás não tinham vergonha de confirmar isso. A política era uma peça importante de uma arma na sua guerra eugênica contra a população não pertencente à elite.

Royal Meeker da Universidade de Princeton era comissário do trabalho de Woodrow Wilson. “É muito melhor decretar uma lei do salário mínimo, ainda que prive esses desafortunados de trabalho”, Meeker argumentou em 1910. “Melhor que o Estado desse suporte aos ineficientes e prevenisse a multiplicação dessa raça do que subsidiar a incompetência e a gastança, permitindo que eles procriem mais gente de sua estirpe.”

Frank Taussig, que em outras áreas era um bom economista, perguntou em seu best-seller“Princípios de economia” (1911): “como lidar com os não empregáveis?”

“Devemos simplesmente nos livrar deles”, declarou.

Nós não alcançamos o estágio onde podemos eliminá-los com clorofórmio de uma vez por todas; mas pelo menos eles podem ser segregados, colocados em refúgios e asilos, e prevenidos de propagarem sua estirpe…

Quais são as possibilidades de empregar nos salários prescritos todos os aptos que se candidatam? As pessoas afetadas por essa legislação seriam aquelas do grupo econômico e social mais baixo. Os salários nos quais elas conseguem encontrar emprego dependem dos preços que seus produtos serão vendidos no mercado; ou na linguagem técnica dos economistas modernos, na utilidade marginal dos seus serviços. Todos aqueles cuja produção adicional pressionasse os preços a ponto do mínimo não poder ser pago pelos empregadores ficariam sem o emprego. Talvez seja viável prevenir empregadores de pagar qualquer um menos que o mínimo; porém, o poder da lei deve ser de fato muito forte e exercido muito rigorosamente, com o intuito de prevenir as barganhas, que são bem-vindas por ambos os lados.

Esses exemplos são apenas uma pequena amostra e dizem respeito a somente essa uma política. A eugenia também influenciou outras áreas da política americana, especialmente na segregação racial. Obviamente que você não pode deixar todas as raças socializando e festejando juntas se o objetivo é gradualmente exterminar uma e impulsionar o crescimento populacional da outra. Esse objetivo era a motivação por trás de tais políticas como regulação nas casas de dança, por exemplo. Era também uma motivação por trás da proliferação de licenças de casamento, projetadas para prevenir os indesejáveis de se casarem e reproduzirem.

Mas o salário mínimo está em uma categoria especial porque, hoje em dia, seus efeitos são tão pouco entendidos. Cem anos atrás, legislar o salário mínimo era uma política deliberadamente concebida para empobrecer as classes mais baixas e os indesejáveis, além de desincentivar a sua reprodução. Um gulag refinado.

Com o passar do tempo, o movimento eugênico se foi, mas a persistência das suas políticas de salário mínimo não. Um salário mínimo nacional foi aprovado em 1931 pela lei Davis-Bacon4. A lei exigiu que firmas que tivessem contratos com o governo federal pagassem salários atualizados, o que significa salários dos sindicatos, um princípio que depois tornou-se o salário mínimo nacional.

Discursos em favor da lei eram explícitos sobre o medo de que trabalhadores negros estariam atrapalhando a demanda dos sindicatos exclusivos para trabalhadores brancos. A política de salário mínimo era um reparo: tornou possível trabalhar por menos. A sórdida história da lei do salário mínimo é angustiante na sua intenção mas, pelo menos, realista sobre o que o salário mínimo realmente faz. Ele acaba com a ascensão social.

A Alemanha Nazista, também chamada de Terceiro Reich, estendeu-se de 1933 a 1945, sob o comando de Adolf Hitler.
A Alemanha Nazista, também chamada de Terceiro Reich, estendeu-se de 1933 a 1945, sob o comando de Adolf Hitler.

Eugenia como conceito finalmente perdeu força depois da Segunda Guerra Mundial, quando foi associado ao Terceiro Reich. Mas as políticas de trabalho por ela motivadas não desapareceram. Elas passaram a ser promovidas não como um método de exclusão e exterminação, mas, por menos plausível que seja, como um esforço positivo para beneficiar os pobres.

Qualquer que sejam as intenções, os efeitos ainda são os mesmos. Nesse ponto, os eugênicos estavam certos. O movimento eugênico, ainda que perverso em seus motivos, entendeu uma verdade econômica: o salário mínimo exclui pessoas do mercado de trabalho. Tira das populações marginalizadas o seu poder mais importante no mercado de trabalho: o poder de trabalhar por menos. Carteliza o mercado de trabalho permitindo o acesso às pessoas no grupo com salários mais altos, enquanto que exclui as pessoas com salários mais baixos.

King escreveu sobre a crueldade do Estado em seu tempo. Essa crueldade se estende desde tempos atrás, e está cristalizada por uma política de salário que efetivamente faz a produtividade e a ascensão social ilegais. Se queremos rejeitar as políticas eugênicas e a malícia radical por trás delas, devemos também repudiar o salário mínimo e abraçar o direito universal de barganha.


Esse artigo foi originalmente publicado como The Eugenics Plot of the Minimum Wage para oFoundation for Economic Education.