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O Brasil não tem homens de ideias, mas sim escravos de ideias

 

Os maiores problemas que enfrentamos atualmente são os problemas estruturais, isso é: perdemos a consciência de nossas raízes culturais e históricas e morais. A cada dia que passa, mais essa convicção se afirma em minhas análises políticas (HENRIQUE, 2017, P. 523 – 534). Falar em reforma política, em criação ou desmanche de partidos, fundo partidário, maneiras de se formatar as futuras eleições, debater sobre qual o melhor modelo para o Estado, tudo isso é o mesmo que usar Band-Aid para tratar um câncer. O problema no Brasil é mais profundo, é quase que ontológico; como dito acima, nossas aporias envolvem uma mistura de falta de consciência moral, de alta cultura, e de consciência histórica.

Sem uma consciência moral em consonância com a realidade, simplesmente permanecemos inertes num mar de erros — sem sabermos sequer que estamos nesse mar —, ficamos enclausurados em nossas inépcias intelectuais e confusões retóricas; nos tornamos incapazes de decidir se matar um feto é algo correto, se erotizar crianças é algo moral e se um homem que se diz mulher pode frequentar o mesmo banheiro que nossas filhas. Se não conhecemos quais são os fundamentos do certo e do errado, também não sabemos como reagir aos mais simples absurdos postos com ares de normalidade; sem o esclarecimento moral perdemos a capacidade de afirmar o óbvio e passamos a aceitar o bizarro ao mais leve soar da palavra “tolerância”. Enfim, perdemos a capacidade de reprovar o erro e aprovar o acerto, viramos marionetes nas mãos de homens de boa retórica.

Sem a alta cultura não sabemos a qual cosmion político pertencemos, quais são as nossas características territoriais, psicossociais e quais são as constituições elementares de nossas ações inconscientes enquanto povo inserido num éter social; se sequer reconhecemos nossa própria cultura, não saberemos, também, quando ela for destruída, se não sabemos donde vem nossas características seremos incapazes de reagir quando nossa honra for atacada.

Sem a consciência histórica, por sua vez, nos tornamos órfãos num reformatório estranho; sem termos arraigados em nós o elo histórico que nos torna um coletivo unido por um conjunto de tradições, hábitos e rituais, nos sentimos indivíduos jogados a esmo sem nada que nos una historicamente como um povo, nação ou humanidade. Somos átomos perdidos no meio de outros átomos perdidos, somos senhores e senhoras sem parentes e sem lembranças. Não temos honra a defender, pois a honra requer amor ao que herdamos de nossos ancestrais, e sem consciência histórica não somos capazes de herdar nada e nem de conhecer nossos ancestrais; não temos tradições a resguardar, pois a tradição é feita por mil mãos que nos antecederam e, da mesma forma que não somos capazes de reconhecer nossos avós, também não somos capazes de transmitir seus feitos.

Na realidade, sem nossa consciência moral, cultural e histórica somos incapazes de falar em democracia, já que a sociedade onde vigora os princípios democráticos depende do filete moral, cultural e histórico para existir. Todavia, de modo especial devemos salientar, todas as sociedades são feitas de defuntos e nascituros, símbolos perfeitos para ilustrar a consciência histórica como sendo irmã mais velha dos outros pilares citados — moral e cultural. Sem a consciência histórica não nos damos conta da moral na qual estamos inseridos e nem nos sentimos partes das mesmas regras sociais; da mesma maneira que sem ela é totalmente inútil e estéril pregar qualquer alta cultura, já que a alta cultura advém exatamente dos conhecimentos históricos acumulados. A democracia, por fim, depende diretamente da manutenção — nos indivíduos — da noção de continuação histórica, aquilo que Chesterton denominou de “democracia dos mortos” (CHESTERTON, 2013, p. 78). Ou seja, a democracia dos mortos se refere à consciência de que não nasci num mundo amorfo, que eu pertenço a uma espécie, que estou inserido numa cultura e numa moral social; e que, como parte de um todo, também sou responsável pela defesa e manutenção de suas estruturas.

Estou inclinado a acreditar que a perda desses pilares, na modernidade brasileira, se deu pela ascensão desenfreada das ideologias políticas como arquétipos ideais de sociedade perfeita em contraponto à sociedade real. As ideologias políticas oferecem tudo que elencamos acima, todavia as oferecem em forma de falsificações do que é real. Ao invés de oferecerem uma consciência moral, eles oferecem uma “antimoral” que justifica os fins políticos almejados por seus teorizadores não importando quais os meios a serem utilizados para isso. Ao invés de oferecerem uma alta cultura, fruto do desenvolvimento humano durante a história, eles oferecem uma subcultura desconexa da realidade com a intenção de tornar normal o absurdo e desvalorizar a alta cultura que eles consideram um pilar essencial da burguesia opressora. A consciência histórica, por sua vez, deve ser a visão histórica enxergada através dos óculos da ideologia; os fatos históricos passam a ser relatos enviesados através de pressupostos políticos. A história passa ter um motor, e todas as biografias que se ausentam desse modelo interpretativo como explicação inicial para os fatos históricos passam a ser identificados como uma interpretação apócrifa ou anticientífica.

Sob tal estrutura as pessoas deixam de ter contato com a realidade factual e começam a viver numa realidade construída por ideólogos; vivem de pressupostos políticos e não de experiências com o real. Veem e percebem que o céu é azul, todavia começam a questionar suas experiências factuais, pois, seus modelos ideológicos discordam do fato por eles experienciados. Para os marxistas, por exemplo, o que move o pai a comprar uma bola para seu filho é um motor econômico de embate entre proletários e burguesia, para o pai, entretanto, o que o move é tão somente a vontade de satisfazer a expectativa natalesca de seu filho.

A cada passo dado os ideólogos são levados a interpretar o fato segundo a forma política no qual eles foram forjados; assim como para um louco o fato de uma criança andar com os pés dentro das demarcações do paralelepípedo pode significar uma missão secreta dado por algum órgão oficial; os doutrinados não conseguem conceber a realidade por ela mesma. Para esses, qualquer fato corriqueiro pode significar uma tramoia da direita para suprimir o bolsa-família, a bandeira do Japão pode ser o sinal da tomada comunista do Brasil. Parafraseando Chesterton: na modernidade teremos que provar que a grama é verde.

É sob essa aporia ideológica que o Brasil se encontra; não vivemos a partir da realidade factual, aquela que todos percebem e com as suas razões instrumentais tentam equalizar soluções e explanações para os acontecimentos. Vivemos num aquário ideológico, num mundo paralelo criado por teorizadores e por eles sustentados através de suas interpretações unilaterais.

Muitos autores trataram da temática, Chesterton chamou tal fenômeno de “universalidade restrita” (CHESTERTON, 2013, p. 40). Isto é: a incapacidade dos indivíduos de transcenderem suas cercas ideológicas e proporem, a si próprios, respostas que estão ausentes do seu catecismo partidário; de antemão eles adequam a realidade à sua interpretação, ao invés de interpretar a realidade a partir dos fatos que a própria existência nos dá. “O poeta pretende apenas meter a cabeça no Céu, enquanto o lógico se esforça por meter o Céu na cabeça. E é a cabeça que acaba por estourar […]” (CHESTERTON, 2013, p. 37). Para Chesterton o Poeta é aquele que consegue transcender o seu mundinho interpretativo e notar a realidade tal como ela se apresenta; enquanto o lógico é aquele que vê um movimento motorizado em tudo, aquele que não consegue conceber a realidade por ela mesma, tendo que adequá-la e modificá-la sempre na tentativa — quase sempre frustrada — de manter a coerência sua teoria. Ou seja, o lógico para Chesterton é o ideólogo para nós.

Quando partimos para o labo B percebemos que há outro problema corrente no Brasil, aqueles que percebem o problema, notam que sua teoria não fornece uma solução viável e satisfatória, mas ainda sim insistem nela por puro ego ou por vantagens que decorrem da defesa da teoria. Jose Ortega Y Gasset chamou tal atitude de “acanalhamento” (Y GASSET, 2016, p. 222): o ato de aceitar um erro como sendo acerto, alienar sua razão lógica com o fim de perdurar, defender ou tornar imaculada uma interpretação unilateral e ideológica. Como parte do mesmo aparato, Eric Vogelin chamou tal aporia de “sacrificium intellectus” (VOEGELIN, 2013, p. 62), ou seja: o ato de sacrificar a própria capacidade racional de reflexão em função de dogmas e sistemas ideológicos que — apesar de não evidenciar e nem solucionar os problemas — dão aos seus fiéis uma realidade coesa e a sensação de segurança acerca dos problemas a serem tratados.

Os políticos atuais não possuem capacidade de sanar os problemas brasileiros porque são incapazes de transpor suas ideologias políticas e dogmas partidários, são incapazes de saírem de seus aquários e universos restritos. Pensam com as mentes do partido, raciocinam a partir dos moldes ideológicos ensinados por intelectuais que sofrem dos mesmos males que eles. Enfim, somos uma nação que tenta sanar os mesmos problemas se utilizando sempre das mesmas soluções parciais; por serem incapazes de enxergar a origem do problema, por causa de sua miopia ideológica, são também incapazes de acertar na solução. Quando alguns poucos enxergam a origem real do problema, eles alienam as suas consciências à decisão do partido, por covardia, conveniência ou conchavos. E por isso vivemos de reformas superficiais, pois com as reformas nós não tocamos no âmago do problema, não colocamos em risco as interpretações oficiais dos partidos e nem seus conchavos criminosos.

A solução para isso, é aquilo que Eric Voeglin chamou de Anamnese, isto é, uma autorreflexão e rastreio de nossas ideias morais, intelectuais e culturais, perceber quais são os princípios e correntes ideológicas que têm influência sobre nós, e, a partir disso, tornarmo-nos senhores dessas correntes e princípios, e não eles senhores de nós. Em suma, devemos formar novas gerações que possuem arraigados princípios maduros de liberdade, responsabilidade e autocontrole para gerir suas ideias e não ser escravizado por elas. Ludwig von Mises afirmou que: “Ideias, somente ideias, podem iluminar a escuridão (MISES, 2017, p. 213), e é verdade, somente as ideias, pautadas na realidade e estruturadas sob os pilares morais, culturais e históricos, podem trazer luz ao mundo que foi submerso em ideologias e ficções sobre sociedades perfeitas.

Se conseguirmos formar indivíduos que gerenciam as suas ideias, que dominam e não sejam dominados por interpretações e modas intelectuais, aí então estaremos numa sociedade de pessoas aptas a suprirem suas necessidades, criarem novas soluções e consertarem o que foi danificado. Para isso precisamos de pessoas que estejam conscientes da realidade, que já nasçam conscientes da estrutura histórica que o sustenta e que dessa estrutura eles tragam os compromissos, deveres e as esperanças daqueles que o antecederam; serão deles a missão de guardar e transferir, como um cordão umbilical, as características culturais de seu povo e os anseios de sua nação, tudo isso gerido através de balizas morais que tornam minimamente possível a convivência de indivíduos numa mesma polis. O homem de ideias é aquele que mantém em equilíbrio — em si e na sociedade — as ações morais, respeito cultural e honra histórica.

Por enquanto penamos por não termos formados mentes livres, mas sim mentes dependentes e escravas de teorias e ideólogos. Não encontramos soluções para os males políticos, pois não formamos homens capazes de compreender a política fora das polarizações ideológicas. Por isso sempre digo em minhas palestras: foquemos nossos suores e forças nas gerações vindouras caso queiramos um país com homens de ideias ao invés de um país com homens escravos de ideias.

 

Referências:

ALVES, Pedro Henrique. As raízes da corrupção no Brasil. Mises: Revista interdisciplinar de filosofia, direito e economia, Rio de Janeiro, v, IV, n. 2, jul./dez. 2016

CHESTERTON, G. K. Ortodoxia, Campinas: Ecclesiae, 2013

MISES, Ludwig von. As seis lições: reflexões sobre política econômica para hoje e amanhã, 8ª Ed, LVM: São Paulo, 2017

VOEGELIN, Eric. Idade média tardia, É realizações: São Paulo, 2013

Y GASSET, José Ortega. A rebelião das massas, 5ª Ed, Vide Editorial: Campinas, 2016

 

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Expondo as Perigosas Premissas dos Economistas Liberais

Brian McCall – Colunista do Remnant,

Oklahoma, EUA [*]

Notas de Antônio Emílio Angueth de Araújo:

1) Este blog recebe seu primeiro colaborador. Guilherme Ferreira Araújo, amigo e irmão em Cristo, traduz este importante artigo. Agradeço-lhe a colaboração, e espero contar com ela mais vezes.

2) O assunto do artigo é muito importante: a concepção católica da economia. Ele já apareceu no blog muitas vezes. Convido os leitores que ainda não leram verificar a seguinte seqüência de posts [em angueth.blogspot.com.br]: Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca – Parte I, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca – Parte II, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca – Parte III, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca – Parte IV, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca – Parte V, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca – Parte VI,Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca – Parte VII, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca – Final e Opondo-se à heresia austríaca. Verifiquem também Economia e catolicismo e Juros: Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises e Santa Catarina de Sena.

3) Tom Woods, economista dito liberal, cujas idéias são comentadas neste artigo, é na verdade economista austríaco. Ele é autor de um livro de defesa da Igreja, recentemente traduzido pela Editora Quadrante, de título “Como a Igreja Católica Construiu o Ocidente”. O livro é razoável nos capítulos não-econômicos. Quanto chega na economia, Woods defende a heresia austríaca e suas idéias são lamentáveis.

*  *  *

A hipótese central subjacente a todo o pensamento econômico liberal (em contraste com pensamento econômico católico) é a ganância. Ora, economistas liberais nem sempre usam essa palavra; eles podem chamá-la “razão de lucro”, “interesse próprio” ou “maximização da riqueza”, mas todos esses termos se resumem à mesma coisa.

Os economistas liberais mais inteligentes ocultam esse princípio declarando que ele é válido apenas no interior da “estrutura” econômica. Uma vez que a riqueza é gerada a moralidade pode ter algo a dizer sobre o que alguém fará com ela; mas, dentro da análise do processo de produção, a maximização do lucro é o critério supremo para a avaliação das escolhas econômicas: a alternativa que produz mais riqueza é a chave para a escolha da ação humana (até mesmo se alguém reconhecer que a moralidade pode impor demandas a um uso ulterior dessa riqueza). Todas as outras considerações no fim retificam esse único critério.

Responsabilidade social, práticas de caridade, preocupação com a segurança de trabalhadores e outros valores podem ser levados em conta pelos economistas liberais, mas somente depois de obtido máximo lucro ou a maximização da riqueza. Uma decisão de doar computadores para uma escola é justificada pelo conselho diretor de uma empresa apenas na medida em que o empreendimento espera receber em algum momento uma quantidade maior de riqueza do que aquela empregada na doação por meio de publicidade ou da boa vontade do cliente. É por isso que os participantes de um sistema controlado e regulamentado pelo pensamento econômico liberal podem ser pessoas decentes, mas sua filosofia impede a “intrusão” de tal moralidade nas decisões de um negócio, no qual a geração do lucro é o maior bem a ser procurado.

Isso isenta os economistas liberais das exigências de justiça e equidade da Lei Moral (Divina e Natural). Além disso, alguns economistas liberais abrem exceções a algumas ofensas odiosas à Lei Natural tal como a fraude e a violência. Não obstante, o homem está sujeito inteiramente à Lei Divina e Natural. Nós não somos livres para escolher quais normas observar e quais deixar fora de nosso “framework” artificial.

Ora, alguém que tenha uma noção do seja que o catolicismo provavelmente sabe que essa filosofia é defeituosa. Para ver exatamente por que ela é defeituosa, nós exploraremos a Doutrina da Economia Católica.

Como ensina Santo Tomás de Aquino, fiando-se em Aristóteles: O homem age em conformidade com os fins. Nós escolhemos ações que, à luz de todos os fatos relevantes, parecem atingir um fim particular. Alguns fins são incompletos; eles não aperfeiçoam todos os aspectos da natureza humana. Alguns fins são mais completos; eles abarcam mais aspectos da natureza humana. O último ou mais completo fim do homem é a salvação eterna; a visão beatífica. Ao atingir esse fim a natureza do homem chega à perfeição. Abaixo desse fim perfeito há outros fins necessários que devem ser perseguidos a fim de que tornem alcançável o fim perfeito. O fim natural mais elevado é o viver uma vida virtuosa numa sociedade pacífica. Abaixo desse fim natural perfeito, a criação de uma riqueza temporal suficiente é um dos fins imperfeitos encerrados naquele fim natural perfeito.

A fim de que possa vir a conhecer, amar e servir a Deus, e viver bem com a sua vizinhança neste mundo de modo a atingir seu fim último – felicidade no paraíso – o homem deve satisfazer as necessidades físicas de sua natureza corporal. A satisfação das necessidades temporais humanas fornecidas pela riqueza é, portanto, um dos fins em direção ao qual a natureza humana, e consequentemente a lei natural, o dirige.

No entanto, nós não podemos perder de vista o fato de que esse fim é apenas intermediário, imperfeito. A riqueza ou lucro não é um fim último em si mesmo; é um meio para se alcançar outros fins e deve ser moralmente avaliado como tal. Ele deve limitar-se, portanto, ao âmbito que se sujeita aos fins últimos naturais e sobrenaturais do homem.

Aqui nós vemos que o erro fatal do economista liberal é que ele faz de um fim imperfeito o critério perfeito da decisão, dentro de uma estrutura que ele usa arbitrariamente para separar a atividade econômica do mesmo grau de escrutínio moral que governa outra atividade humana.

O efeito disso é que a obtenção de riqueza torna-se infinita. Quando um fim imperfeito é tratado como perfeito, então é corrompido, e a orientação própria do homem em direção ao seu verdadeiro fim é obscurecida. É por isso que é exigido do homem pôr limites no aumento da riqueza como um critério de tomada de uma decisão no campo econômico, do mesmo modo que ele deve pôr justo limite em seu apetite concupiscente.

A busca da riqueza

O desejo pela riqueza, assim como o desejo por outras coisas, não é mal em si mesmo, mas deve ser refreado. A geração da riqueza, de acordo com o pensamento econômico Católico, deve ser refreada assim como os desejos de concupiscência devem estar sujeitos à razão. Henrique de Hesse explica isso da seguinte maneira: “Quem quer que tenha o suficiente para essas coisas (para sustentar alguém, para realizar atos de piedade, para manter provisão razoável para futuras emergências, ou para manter a prole), mas ainda trabalha incessantemente para acumular riquezas ou um status social mais elevado, ou de tal modo que mais ele viva sem precisar trabalhar, ou de tal modo que seus filhos sejam ricos e poderosos – tudo isso é impulsionado por condenável avareza, prazer físico e orgulho.” [1]

Ter o suficiente para tudo isso e ainda desejar mais excede as fronteiras da prudência. Então, refreios no desejo pela riqueza não são excessivos, mas antes muito prudentes. Há um limite mais externo para a ganância. São Bernardo concorda com a seguinte conclusão: “Por elas mesmas, no que tange ao bem-estar espiritual, elas [as riquezas] não são nem boas nem más, antes o uso delas é bom, o abuso, ruim; o desejo veemente por elas é pior; a ganância por ganhar ainda mais é vergonhosa.” [2] O uso adequado da riqueza é virtuoso; seu abuso – a avidez por ganhar – é um vício.

Não obstante, a filosofia da economia liberal afirma que toda escolha que aumente a rede de riqueza é boa; o princípio não admite nenhum limite. A razão do lucro, na filosofia do economista liberal, não pode admitir o limite defendido pela filosofia da economia católica. O lucro é sempre bom e mais lucro é sempre algo melhor – novamente, dentro da estrutura que os economistas liberais usam para dispensar a economia de escrutínio moral, enquanto declaram que fora dessa estrutura os capitalistas podem ser pessoais morais e generosas no que tange à decisão de como eles usarão sua riqueza.

Santo Tomás usa uma imagem da natureza para demonstrar como ser propriamente cuidadoso com os bens temporais significa manter tal desejo em seu limite próprio – um tempo adequado. “A formiga é cuidadosa num tempo adequado, e é isso que é proposto para o nosso exemplo. A previsão justa do futuro pertence à prudência. Mas seria um cuidado ou previsão desordenada do futuro se um homem se pusesse a buscar coisas temporais, às quais os termos ‘passado’ e ‘futuro’ se aplicam, como fins, ou se ele passasse a buscá-los excedendo as necessidades da vida presente, ou se ele passasse a monopolizar o tempo por preocupação.” [3] Nós podemos buscar lucros, mas fazê-lo em excesso é um vício, tanto como ser irresponsável em relação a eles (monopolizar o tempo por preocupação).

Comedimento moral VS. Interferência do governo

Antes de prosseguir nesse argumento eu devo dar uma pausa para esclarecer que o reconhecer um comedimento moral sobre a razão do lucro não é análogo ao asseverar que o governo deve impor esse comedimento em todas as circunstâncias. A questão de qual seja o equilíbrio apropriado na lei pública da Igreja, governo local, governo nacional e refreamento pessoal dirigido por um confessor é uma questão que trata dos meios apropriados. Este é em si um tópico vasto; por séculos e à luz de diferentes circunstâncias o equilíbrio entre o foro íntimo (confissão) e os vários foros externos (cortes civis e eclesiásticas) tem permanecido e continuará.

Não obstante, proponentes do Liberalismo Econômico frequentemente procuram pôr em desordem a questão tentando desviar do assunto deste tópico. Eles confundem o argumento de que a moralidade requer esse refreio com a defesa de um estado policial totalitário. Ao fazer isso, os economistas liberais evitam ter de argumentar contra a questão real: o princípio do lucro não pode ser o único critério de avaliação da justiça e da moralidade das escolhas econômicas.

Ao retornar ao refreio necessário, lembre-se dos outros fins da existência humana. Quais são esses fins? Eles não são senão os fins naturais e sobrenaturais do homem. Então, por exemplo, viver de forma justa ou devolver aos outros seus direitos é um fim da natureza social do homem. A Justiça é uma das virtudes cardeais que o homem deve esforçar-se por obter de modo a aperfeiçoar sua trajetória em direção ao fim perfeito. Portanto, é ilícito obter lucro através do uso de meios que violam a justiça comutativa (que inclui mais que a fraude). O pensamento econômico liberal rejeita esse refreio. Isso para não dizer nada da lei divina à luz da qual as ações humanas devem ser julgadas.

O economista liberal católico Tom Woods argumentou que “a economia é a ciência cujo propósito é empregar a razão humana para descobrir como os fins humanos podem ser alcançados. O que deveriam ser esses meios é assunto para ser decidido pela Teologia e pela Filosofia Moral.” [4] Tudo quanto nos leve ao fim escolhido da forma mais eficiente será a escolha econômica correta. Não obstante, a moral católica não permite ambivalência em relação aos meios. Mesmo que os fins de alguém sejam bons (enquanto estabelecidos pela Teologia e pela Filosofia Moral, como diria Tom), os meios escolhidos também devem ser moralmente justos. Deste modo, afirmar que a economia é meramente a ciência dos “meios” é um argumento imperfeito. A escolha dos meios não é moralmente neutra. Os meios têm implicações morais.

Um típico argumento de economista liberal é que um salário baixo (que esteja abaixo do valor intrínseco do trabalho desempenhado para aquele salário) é aceitável se o livre-mercado produzir tal ordenado (devido a um grande número de trabalhadores desempregados, por exemplo). [5] Argumenta-se que até mesmo o trabalhador que recebe um salário injusto estará em melhor situação no final das contas porque o lucro obtido pelo empregador aumenta a riqueza geral para a sociedade, ou para expor isso da forma favorita dos economistas liberais, uma maré crescente levanta todos os barcos. Admitindo por um momento que essa assertiva seja de fato verdadeira (apesar de ela ser contra-intuitiva), [o fato é que] o pensamento econômico católico proíbe o pagar um salário injusto como sendo um meio para esse fim. Mesmo que mais riqueza seja gerada para a economia ou mais pessoas tenham empregos, se esse fim é alcançado através da violação da justiça, ele não pode justificar um meio injusto. Um trabalhador tem recebido um valor menor do que o do trabalhado realizado. A sociedade pode ser mais próspera, mas o fim do homem chamado justiça foi violado pelo uso de meio injusto. Conforme foi mostrado, a economia é “livre de valores” [6] simplesmente porque ela recusa considerar os valores morais que refreiam o uso de meios injustos.

Ora, o motivo pelo qual economistas liberais não conseguem perceber o erro de os fins justificarem os meios é o afirmar que as atividades econômicas são amorais – não têm implicações morais. Tom Woods, por exemplo, afirma que “absolutamente nada no campo da lei econômica derivada da praxeologia envolve reivindicações normativas” e “é absolutamente irracional argumentar que… a lei econômica deveria ser subordinada à lei moral.” Tom declara isso baseado numa compreensão da Economia como um mero estudo da ação humana para descobrir leis ou operações naturais independentes. [7] Visto que essas leis fazem parte da “natureza” elas não são morais ou imorais; elas apenas existem. Ele compara as leis econômicas até mesmo com a lei da gravidade. [8] O erro decisivo nesse raciocínio é que todas as ações humanas envolvem escolha. As ações humanas não são como a gravidade, que é pré-determinada e opera de forma independente. Escolhas sempre têm implicações morais; ou elas são moralmente lícitas ou são escolhas ilícitas. Tom está certo: a economia envolve o estudo das ações humanas. Não obstante, ao contrário do estudo da gravidade, que existe naturalmente, todos os atos humanos são produtos de uma escolha e têm implicações morais, assim como refreios naturais e divinos.

Consideremos um dos exemplos favoritos de Wood de uma “lei econômica” semelhante, para ele, à gravidade: a lei da oferta e da procura. [9] Quando a oferta diminui ou a demanda aumenta os preços aumentam. Ele afirma que isso pode ser observado empiricamente e, portanto, o movimento do aumento dos preços em decorrência da queda da oferta ou do aumento da demanda é moralmente neutro; isso acontece como resultado da força de uma “lei econômica natural”. Essa asserção é falsa. Os preços não são forças autônomas independentes da escolha humana. Os preços aumentam porque as pessoas escolhem aumentá-los.

Ora, pode ser verdade que desde a aurora da Era Liberal as pessoas passaram a aumentar os preços em tais contextos porque elas acreditam, erroneamente, que não têm escolha alguma: “Uma vez que os preços sempre aumentam com diminuição da oferta, eu tenho de elevar o meu preço.” Na Cristandade, entretanto, quando as pessoas não estavam embriagadas com a propaganda do Liberalismo Econômico, essa não era a reação usual. As causas, natureza e duração da falta de oferta, ou do aumento da demanda, tinham de ser consideradas diante de uma associação, ou de uma autoridade pública, ou um padre confessor que permitiria o mercador a elevar os preços. Então, preços podiam ser alterados, mas desde que houvesse uma razão moralmente lícita para fazê-lo, como um aumento sustentado no custo do transporte das mercadorias.

Além disso, diferentemente da Economia Liberal tal como defendida por Tom Woods, a Economia Católica afirma que não é moralmente permissível o aumento dos preços em decorrência da necessidade particular de um comprador de mercadorias e serviços. Santo Tomás ensina que é injusto da parte de um vendedor cobrar mais porque o comprador necessita particularmente de uma mercadoria. [10]

Para usar outro exemplo oferecido por Woods, [11] se uma crise como os ataques terroristas a Nova York ocorresse e as pessoas fossem destituídas de seus lares, seria justo elevar o custo de um quarto de hotel em 185% simplesmente porque mais pessoas querem quartos? Woods afirma que sim, alegando que permitir esse tipo de extorsão é bom porque permite que o meio pecuniário – o quarto – vá para a pessoa que mais o valorize. Na verdade, isso faz com que o quarto fique com os mais ricos, que podem ou não ser aqueles que dão mais valor ao quarto. Uma pessoa que possua meios modestos e que não tem nenhum outro lugar para encontrar abrigo para sua família pode dar maior valor ao quarto do que um milionário que apenas não quer passar uma noite com seus parentes. A diferença é que o homem de meios moderados tem menos riqueza para expressar o maior valor que dá ao quarto.

Tom tenta desviar do assunto nesse ponto, argumentando que o manter os preços dos quartos em níveis normais num período de crise provocará o desperdício de recursos limitados, com uma família utilizando dois quartos quando ela usaria apenas um se os preços fossem mais altos. [12] Antes de tudo, é precisamente o locatário mais rico, e não o chefe de família com baixo salário, que provavelmente receberá mais do que é devido, locando mais que um para o seu conforto, então o argumento falha por conta disso.

De qualquer modo, uma vez que esse efeito envolve a escolha humana, ele não é inevitável. O proprietário do hotel pode simplesmente determinar que numa emergência uma família com quatro membros poderá locar apenas um quarto de modo que outros que necessitem possam ocupar o segundo quarto. Não há necessidade de elevar o preço em 185% para alcançar o racionamento justo de recursos escassos. Não obstante, uma vez que Tom começou com a falsa premissa moral de que preços e outras decisões econômicas são independentes de uma escolha humana moral, ele argumenta falsamente que as escolhas econômicas deveriam cair onde elas puderem, assim como uma bola jogada só pode cair no chão devido à lei da gravidade.

Então, no final o obscurecimento da escolha humana moral envolvida em todas as atividades econômicas torna-se uma fachada através da qual a riqueza pode ser buscada sem quaisquer limites morais.

Conclusão

A Economia não é uma disciplina que lida com forças invariáveis independentes tal como a física. Ela é o estudo das ações humanas relativas aos meios para se criar bens temporais. Toda ação humana e todos os meios usados para alcançar fins devem ser orientados para, e limitados pelos, fins últimos do homem.

Essa simples verdade tem sido atacada por séculos pelos economistas liberais. É o momento de darmos à Verdade de Cristo, à lei moral natural, o seu lugar apropriado na economia. O único desejo do homem que pode ser moralmente ilimitado é o desejo por Deus. O desejo pela riqueza deve estar sujeito a limites justos, com Deus e Sua lei à vista a todo momento.

Filosofia

A maior dificuldade de ler os escritos de ideólogos, como por exemplo Marta Harnecker, Saul Alinsky ou Judith Butler, é que, comungando com seus leitores uma multidão de pressupostos culturais nebulosos, transmitidos por chavões e senhas sem um conteúdo intelectual analisável, não se destinam a ser COMPREENDIDOS, mas a reforçar uma identidade grupal e planos de ação coletiva entre pessoas que também não os compreendem, apenas se sentem, ao lê-los, numa atmosfera psicológica familiar.
Discutir esses livros filosoficamente é um desvio de foco. Eles só podem ser compreendidos psicologicamente.

Uma filosofia tem de conter em si mesma os princípios da sua própria inteligibilidade, ou pelo menos reportar-se a um critério de inteligibilidade externo identificável (por exemplo, um neotomista não precisa explicar de novo tudo o que Sto. Tomás já explicou). Ideologias não fazem uma coisa nem a outra. A rigor, são ininteligíveis. Só se pode compreendê-las em função de interesses grupais que elas antes encobrem do que revelam. Não podem ser propriamente compreendidas, só desmascaradas.

Por:  Olavo de Carvalho