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O Politicamente Correto Tem Que Ser Combatido de Frente

O politicamente correto é a principal e mais importante ferramenta de guerra política criada pela esquerda nas últimas décadas, destinada a cercear a liberdade de expressão e estabelecer unilateralmente quais temas e quais opiniões são admissíveis no debate público, excluindo de antemão toda e qualquer opinião contrária ou que não se enquadre nesse limites estabelecidos pela esquerda. Limites destinados a fazer avançar a agenda ideológica esquerdista no campo da cultura, dos valores éticos e morais e do imaginário coletivo das pessoas.

O politicamente correto consegue avançar em seu propósito de construir a hegemonia do pensamento esquerdista porque as pessoas em condições de enfrentá-lo e contestá-lo são covardes o bastante para se recusar a fazê-lo. Vimos um exemplo dessa covardia essa dias no Brasil, onde os episódios de violência em presídios deram à esquerda a oportunidade de trazer novamente para a esfera da opinião pública sua visão segundo a qual criminosos devem ser protegidos pela sociedade e pelo estado, que deve também empenhar todos os esforços para “ressocializá-los”. Não há nessa visão qualquer menção às vítimas desse criminosos, e a noção de responsabilidade individual é simplesmente ignorada.

A covardia em questão está no posicionamento de algumas figuras públicas que sabidamente não são de esquerda, mas que preferiram tratar desses episódios não por meio da contestação da narrativa esquerdista, mas pelo esforço de se adequar a ela ou pelo menos não confrontá-la. Qual a razão dessa postura, dessa concessão ao politicamente correto por parte de quem não é de esquerda? Ficar bem na foto com os colegas de redação daquele jornal, ou daquela revista, ou daquela emissora de televisão?

Não se combate nem se enfrenta o politicamente correto respeitando seus pressupostos. É preciso fazer exatamente o oposto: é necessário contestar as imposições do politicamente correto a partir do desmascaramento de suas teses centrais, como ressocialização de criminosos, justiça social e outras palavras-gatilho que a esquerda criou justamente para estabelecer as fronteiras do campo de discussão admissível e aceitável. É preciso romper essas fronteiras, e não se limitar a elas com um discurso supostamente mais racional. Uma racionalidade que apenas esconde a covardia de não fazer a guerra política contra a esquerda da maneira que ela deve ser feita

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Meryl Streep e o que tem a dizer Theodore Dalrymple

meryl-streep_theodore-dalrympleMeryl Streep, atriz que já até interpretou Margaret Thatcher, no filme intitulado “The Iron Lady” (A Dama de Ferro), preferiu converter o seu discurso no Golden Globe Awards num episódio de lamúrias. Nada surpreendente até aqui. Não é a primeira nem será a última vez que, não conformada com a eleição de Trump, a elite pro-estabilishment ainda não tenha superado tamanho resentment. M. Streep, apesar do brilhantismo, foi só mais uma — na ocasião, cercada de raros forasteiros, porém legalizados e não menos milionários que ela –, a destilar do alto de suas muralhas, o rancor à plebe. A figura central era Trump, obackground, todavia, é maior que Trump: é todo o americano médio que de facto assiste ao mundo de uma Streep assim como assiste à Chocolate Factory de Roald Dahl. O cerne da coisa permanece o mesmo: o mundo hollywoodiano para a working-class americana, não passa de uma Wonderland, e a esta, a atriz nada tem a dizer. Não passa de uma realidade glamourizada, quase fictícia… Out of touch! Com status de utopia.

O que chega aos ouvidos de quem elegeu Trump, ora… ora…! A Fiat anunciou que investirá um bilhão em Michigan e Ohio, criando duas mil vagas de empregos. Este, naturalmente, não é o dialeto falado en Hollywood.

À parte o que fora dito, por ora, interessam-me dois simples pontos: a atriz acusou Trump de ter zombado de um jornalista do NYT, e isto é falso. O outro, diz respeito ao cafajeste apelo sentimentalista ao público. “Um dos problemas de nossa época é que as pessoas não mais pensam, elas tão-só sentem”, dizia Lady Margaret Thatcher. Com o acréscimo de “aparentar sentir o que se diz sentir”, a coisa está ipis litteris descrita.

A acusação levantada contra Donald Trump pela atriz não é nova, vem sendo repetida pela Left-Wing ad nauseam desde o ano retrasado quando na ocasião Donald Trump se dirigiu ao então jornalista deficiente, Serge Kovaleski, a respeito de uma polêmica em que Kovaleski teria reportado que havia americanos de ascendência árabe celebrando o atentado às Torres Gêmeas. Trump havia antes feito a mesma alegação, e jornais como o The Washington Post (no qual trabalhava o jornalista à época) o teriam desmentido. Trump relembrou o então artigo escrito por Kovaleski, recentemente, e o jornalista por sua vez afirmou não se lembrar dos detalhes do caso. Daí toda a polêmica. Trump ao referir-se ao dito cujo teria gesticulado com as mãos de modo a imitar o jornalista deficiente. Não só o Trump ele próprio desmentiu, como também há vídeos do mesmo se referindo a Ted Cruz (candidato a representar o GOP nas primárias) gesticulando da mesma forma.

Mas a mentira desce fácil. Conta com lubrificantes. Travista-a uma só vez de sentimentalismo que a mentira tornar-se-á verdade. Eis o espírito da época. Somente numa época em que demonstrações públicas exageradas (exagerado é um predicativo que a pouco se tornará desnecessário) são cultuadas como expressões virtuosas, Streeps são tidas como verdadeiras, apesar de falsas; e quando o sentimentalismo torna-se normativo, não importam a verdade, a sanidade e a responsabilidade. Tudo é verdade, desde que sentimentalmente verdade. O perigo disto é patente. O couro fino da nossa época também nos afinou as córneas e, portanto, são poucos os que vêem, menos ainda os que discernem. Theodore Dalrymple emPodres de Mimados alerta:

À primeira vista, essa doutrina pode parecer profundamente imaginativa e compassiva, mas a realidade é bem diversa: ela é, ou pelo menos pode ser (como veremos), uma máscara para a mais completa indiferença para com o sofrimento alheio. Ela dá a entender que todo sofrimento deve ser considerado a partir da própria estimativa do sofredor, o que significa que sofre mais quem expressa o sofrimento com mais força ou, pele menos, com mais veemência

As consequências disto, dentre muitas, se sobressai a principal: o patrulhamento, pois se tornou normativo; a coerção, pois se tornou ameaçador:

[…] quando o sentimentalismo se torna um fenômeno público de massa, ele se torna manipulador de um jeito agressivo: exige que todos tomem parte. Um homem que se recuse, afirmando não acreditar que o pretenso objeto de sentimento seja digno de exibição demonstrativa, coloca-se fora do âmbito dos virtuosos e torna-se praticamente um inimigo do povo. Sua culpa é política, uma recusa em reconhecer a verdade do velho adágio vox populi, vox dei. O sentimentalismo então se torna coercitivo, isto é, manipulador de maneira ameaçadora.

O texto merece a abjeta repulsa, a culpa política e a coerção da patrulha do politicamente correto. Assim também o merece o autor. Nós seremos um Cronos, um Ciclope. Vilipendiados, estejam cientes. Mas também estaremos com a verdade de modo tão absoluto quanto os condenados ao Inferno de Dante.

Pobre mas livre

Guy Franco

 

As cabeças mais brilhantes e iluminadas do país reclamam dos resultados da última eleição municipal. Principalmente em São Paulo. Vi muita gente esculachando a periferia, que preferiu eleger um playboy capitalista a um prefeito cujo governo foi quase todo voltado para o centro expandido da capital. São pessoas que sabem do que falam. Afinal, votam pelo pobre. E quem melhor do que pessoas esclarecidas que votam e pensam e falam pelo pobre para dizer aos pobres o que é melhor para a vida deles?

São os guardiões do Bem e da Verdade. Mas aos olhos desses super-heróis da comiseração, parece que o pobre não é exatamente um indivíduo autônomo capaz de pensar por si e escolher seu caminho na vida sem uma mão paternalista para os conduzir. O pobre está mais para um cão abandonado na rua que depende da generosidade de terceiros; no caso, da generosidade dos eleitores politicamente esclarecidos.

Ou é isso ou o pobre é um desinformado, burro, sem instrução; um estorvo físico que deveria ser extirpado do planeta, como li estes dias na página de um intelectual e professor da Universidade de Brasília.

Esse tipo de pensamento não é novidade e vive aparecendo na internet – mais do que fora dela, claro, porque o eleitor bom, justo e politicamente esclarecido do centro expandido dificilmente cruza na rua com alguém que mora em Guaianases ou Cidade Ademar (nem sabe apontar no mapa da cidade onde esses bairros ficam).

Não é fácil ser pobre no Brasil ou em São Paulo. O pobre, aqui, não tem autonomia sobre a própria vida, sobre as próprias escolhas. O circo em volta dele tenta de todas as maneiras prolongar a sua dependência. É mais vantagem o pobre como um sujeito infantil e com a maturidade de um mamão verde do que uma pessoa crescida e independente. O pobre independente não serve mais para a causa. E quem não serve para a causa pode e deve ser esculachado, entre outras coisas.