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O Brasil não tem homens de ideias, mas sim escravos de ideias

 

Os maiores problemas que enfrentamos atualmente são os problemas estruturais, isso é: perdemos a consciência de nossas raízes culturais e históricas e morais. A cada dia que passa, mais essa convicção se afirma em minhas análises políticas (HENRIQUE, 2017, P. 523 – 534). Falar em reforma política, em criação ou desmanche de partidos, fundo partidário, maneiras de se formatar as futuras eleições, debater sobre qual o melhor modelo para o Estado, tudo isso é o mesmo que usar Band-Aid para tratar um câncer. O problema no Brasil é mais profundo, é quase que ontológico; como dito acima, nossas aporias envolvem uma mistura de falta de consciência moral, de alta cultura, e de consciência histórica.

Sem uma consciência moral em consonância com a realidade, simplesmente permanecemos inertes num mar de erros — sem sabermos sequer que estamos nesse mar —, ficamos enclausurados em nossas inépcias intelectuais e confusões retóricas; nos tornamos incapazes de decidir se matar um feto é algo correto, se erotizar crianças é algo moral e se um homem que se diz mulher pode frequentar o mesmo banheiro que nossas filhas. Se não conhecemos quais são os fundamentos do certo e do errado, também não sabemos como reagir aos mais simples absurdos postos com ares de normalidade; sem o esclarecimento moral perdemos a capacidade de afirmar o óbvio e passamos a aceitar o bizarro ao mais leve soar da palavra “tolerância”. Enfim, perdemos a capacidade de reprovar o erro e aprovar o acerto, viramos marionetes nas mãos de homens de boa retórica.

Sem a alta cultura não sabemos a qual cosmion político pertencemos, quais são as nossas características territoriais, psicossociais e quais são as constituições elementares de nossas ações inconscientes enquanto povo inserido num éter social; se sequer reconhecemos nossa própria cultura, não saberemos, também, quando ela for destruída, se não sabemos donde vem nossas características seremos incapazes de reagir quando nossa honra for atacada.

Sem a consciência histórica, por sua vez, nos tornamos órfãos num reformatório estranho; sem termos arraigados em nós o elo histórico que nos torna um coletivo unido por um conjunto de tradições, hábitos e rituais, nos sentimos indivíduos jogados a esmo sem nada que nos una historicamente como um povo, nação ou humanidade. Somos átomos perdidos no meio de outros átomos perdidos, somos senhores e senhoras sem parentes e sem lembranças. Não temos honra a defender, pois a honra requer amor ao que herdamos de nossos ancestrais, e sem consciência histórica não somos capazes de herdar nada e nem de conhecer nossos ancestrais; não temos tradições a resguardar, pois a tradição é feita por mil mãos que nos antecederam e, da mesma forma que não somos capazes de reconhecer nossos avós, também não somos capazes de transmitir seus feitos.

Na realidade, sem nossa consciência moral, cultural e histórica somos incapazes de falar em democracia, já que a sociedade onde vigora os princípios democráticos depende do filete moral, cultural e histórico para existir. Todavia, de modo especial devemos salientar, todas as sociedades são feitas de defuntos e nascituros, símbolos perfeitos para ilustrar a consciência histórica como sendo irmã mais velha dos outros pilares citados — moral e cultural. Sem a consciência histórica não nos damos conta da moral na qual estamos inseridos e nem nos sentimos partes das mesmas regras sociais; da mesma maneira que sem ela é totalmente inútil e estéril pregar qualquer alta cultura, já que a alta cultura advém exatamente dos conhecimentos históricos acumulados. A democracia, por fim, depende diretamente da manutenção — nos indivíduos — da noção de continuação histórica, aquilo que Chesterton denominou de “democracia dos mortos” (CHESTERTON, 2013, p. 78). Ou seja, a democracia dos mortos se refere à consciência de que não nasci num mundo amorfo, que eu pertenço a uma espécie, que estou inserido numa cultura e numa moral social; e que, como parte de um todo, também sou responsável pela defesa e manutenção de suas estruturas.

Estou inclinado a acreditar que a perda desses pilares, na modernidade brasileira, se deu pela ascensão desenfreada das ideologias políticas como arquétipos ideais de sociedade perfeita em contraponto à sociedade real. As ideologias políticas oferecem tudo que elencamos acima, todavia as oferecem em forma de falsificações do que é real. Ao invés de oferecerem uma consciência moral, eles oferecem uma “antimoral” que justifica os fins políticos almejados por seus teorizadores não importando quais os meios a serem utilizados para isso. Ao invés de oferecerem uma alta cultura, fruto do desenvolvimento humano durante a história, eles oferecem uma subcultura desconexa da realidade com a intenção de tornar normal o absurdo e desvalorizar a alta cultura que eles consideram um pilar essencial da burguesia opressora. A consciência histórica, por sua vez, deve ser a visão histórica enxergada através dos óculos da ideologia; os fatos históricos passam a ser relatos enviesados através de pressupostos políticos. A história passa ter um motor, e todas as biografias que se ausentam desse modelo interpretativo como explicação inicial para os fatos históricos passam a ser identificados como uma interpretação apócrifa ou anticientífica.

Sob tal estrutura as pessoas deixam de ter contato com a realidade factual e começam a viver numa realidade construída por ideólogos; vivem de pressupostos políticos e não de experiências com o real. Veem e percebem que o céu é azul, todavia começam a questionar suas experiências factuais, pois, seus modelos ideológicos discordam do fato por eles experienciados. Para os marxistas, por exemplo, o que move o pai a comprar uma bola para seu filho é um motor econômico de embate entre proletários e burguesia, para o pai, entretanto, o que o move é tão somente a vontade de satisfazer a expectativa natalesca de seu filho.

A cada passo dado os ideólogos são levados a interpretar o fato segundo a forma política no qual eles foram forjados; assim como para um louco o fato de uma criança andar com os pés dentro das demarcações do paralelepípedo pode significar uma missão secreta dado por algum órgão oficial; os doutrinados não conseguem conceber a realidade por ela mesma. Para esses, qualquer fato corriqueiro pode significar uma tramoia da direita para suprimir o bolsa-família, a bandeira do Japão pode ser o sinal da tomada comunista do Brasil. Parafraseando Chesterton: na modernidade teremos que provar que a grama é verde.

É sob essa aporia ideológica que o Brasil se encontra; não vivemos a partir da realidade factual, aquela que todos percebem e com as suas razões instrumentais tentam equalizar soluções e explanações para os acontecimentos. Vivemos num aquário ideológico, num mundo paralelo criado por teorizadores e por eles sustentados através de suas interpretações unilaterais.

Muitos autores trataram da temática, Chesterton chamou tal fenômeno de “universalidade restrita” (CHESTERTON, 2013, p. 40). Isto é: a incapacidade dos indivíduos de transcenderem suas cercas ideológicas e proporem, a si próprios, respostas que estão ausentes do seu catecismo partidário; de antemão eles adequam a realidade à sua interpretação, ao invés de interpretar a realidade a partir dos fatos que a própria existência nos dá. “O poeta pretende apenas meter a cabeça no Céu, enquanto o lógico se esforça por meter o Céu na cabeça. E é a cabeça que acaba por estourar […]” (CHESTERTON, 2013, p. 37). Para Chesterton o Poeta é aquele que consegue transcender o seu mundinho interpretativo e notar a realidade tal como ela se apresenta; enquanto o lógico é aquele que vê um movimento motorizado em tudo, aquele que não consegue conceber a realidade por ela mesma, tendo que adequá-la e modificá-la sempre na tentativa — quase sempre frustrada — de manter a coerência sua teoria. Ou seja, o lógico para Chesterton é o ideólogo para nós.

Quando partimos para o labo B percebemos que há outro problema corrente no Brasil, aqueles que percebem o problema, notam que sua teoria não fornece uma solução viável e satisfatória, mas ainda sim insistem nela por puro ego ou por vantagens que decorrem da defesa da teoria. Jose Ortega Y Gasset chamou tal atitude de “acanalhamento” (Y GASSET, 2016, p. 222): o ato de aceitar um erro como sendo acerto, alienar sua razão lógica com o fim de perdurar, defender ou tornar imaculada uma interpretação unilateral e ideológica. Como parte do mesmo aparato, Eric Vogelin chamou tal aporia de “sacrificium intellectus” (VOEGELIN, 2013, p. 62), ou seja: o ato de sacrificar a própria capacidade racional de reflexão em função de dogmas e sistemas ideológicos que — apesar de não evidenciar e nem solucionar os problemas — dão aos seus fiéis uma realidade coesa e a sensação de segurança acerca dos problemas a serem tratados.

Os políticos atuais não possuem capacidade de sanar os problemas brasileiros porque são incapazes de transpor suas ideologias políticas e dogmas partidários, são incapazes de saírem de seus aquários e universos restritos. Pensam com as mentes do partido, raciocinam a partir dos moldes ideológicos ensinados por intelectuais que sofrem dos mesmos males que eles. Enfim, somos uma nação que tenta sanar os mesmos problemas se utilizando sempre das mesmas soluções parciais; por serem incapazes de enxergar a origem do problema, por causa de sua miopia ideológica, são também incapazes de acertar na solução. Quando alguns poucos enxergam a origem real do problema, eles alienam as suas consciências à decisão do partido, por covardia, conveniência ou conchavos. E por isso vivemos de reformas superficiais, pois com as reformas nós não tocamos no âmago do problema, não colocamos em risco as interpretações oficiais dos partidos e nem seus conchavos criminosos.

A solução para isso, é aquilo que Eric Voeglin chamou de Anamnese, isto é, uma autorreflexão e rastreio de nossas ideias morais, intelectuais e culturais, perceber quais são os princípios e correntes ideológicas que têm influência sobre nós, e, a partir disso, tornarmo-nos senhores dessas correntes e princípios, e não eles senhores de nós. Em suma, devemos formar novas gerações que possuem arraigados princípios maduros de liberdade, responsabilidade e autocontrole para gerir suas ideias e não ser escravizado por elas. Ludwig von Mises afirmou que: “Ideias, somente ideias, podem iluminar a escuridão (MISES, 2017, p. 213), e é verdade, somente as ideias, pautadas na realidade e estruturadas sob os pilares morais, culturais e históricos, podem trazer luz ao mundo que foi submerso em ideologias e ficções sobre sociedades perfeitas.

Se conseguirmos formar indivíduos que gerenciam as suas ideias, que dominam e não sejam dominados por interpretações e modas intelectuais, aí então estaremos numa sociedade de pessoas aptas a suprirem suas necessidades, criarem novas soluções e consertarem o que foi danificado. Para isso precisamos de pessoas que estejam conscientes da realidade, que já nasçam conscientes da estrutura histórica que o sustenta e que dessa estrutura eles tragam os compromissos, deveres e as esperanças daqueles que o antecederam; serão deles a missão de guardar e transferir, como um cordão umbilical, as características culturais de seu povo e os anseios de sua nação, tudo isso gerido através de balizas morais que tornam minimamente possível a convivência de indivíduos numa mesma polis. O homem de ideias é aquele que mantém em equilíbrio — em si e na sociedade — as ações morais, respeito cultural e honra histórica.

Por enquanto penamos por não termos formados mentes livres, mas sim mentes dependentes e escravas de teorias e ideólogos. Não encontramos soluções para os males políticos, pois não formamos homens capazes de compreender a política fora das polarizações ideológicas. Por isso sempre digo em minhas palestras: foquemos nossos suores e forças nas gerações vindouras caso queiramos um país com homens de ideias ao invés de um país com homens escravos de ideias.

 

Referências:

ALVES, Pedro Henrique. As raízes da corrupção no Brasil. Mises: Revista interdisciplinar de filosofia, direito e economia, Rio de Janeiro, v, IV, n. 2, jul./dez. 2016

CHESTERTON, G. K. Ortodoxia, Campinas: Ecclesiae, 2013

MISES, Ludwig von. As seis lições: reflexões sobre política econômica para hoje e amanhã, 8ª Ed, LVM: São Paulo, 2017

VOEGELIN, Eric. Idade média tardia, É realizações: São Paulo, 2013

Y GASSET, José Ortega. A rebelião das massas, 5ª Ed, Vide Editorial: Campinas, 2016

 

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O Politicamente Correto Tem Que Ser Combatido de Frente

O politicamente correto é a principal e mais importante ferramenta de guerra política criada pela esquerda nas últimas décadas, destinada a cercear a liberdade de expressão e estabelecer unilateralmente quais temas e quais opiniões são admissíveis no debate público, excluindo de antemão toda e qualquer opinião contrária ou que não se enquadre nesse limites estabelecidos pela esquerda. Limites destinados a fazer avançar a agenda ideológica esquerdista no campo da cultura, dos valores éticos e morais e do imaginário coletivo das pessoas.

O politicamente correto consegue avançar em seu propósito de construir a hegemonia do pensamento esquerdista porque as pessoas em condições de enfrentá-lo e contestá-lo são covardes o bastante para se recusar a fazê-lo. Vimos um exemplo dessa covardia essa dias no Brasil, onde os episódios de violência em presídios deram à esquerda a oportunidade de trazer novamente para a esfera da opinião pública sua visão segundo a qual criminosos devem ser protegidos pela sociedade e pelo estado, que deve também empenhar todos os esforços para “ressocializá-los”. Não há nessa visão qualquer menção às vítimas desse criminosos, e a noção de responsabilidade individual é simplesmente ignorada.

A covardia em questão está no posicionamento de algumas figuras públicas que sabidamente não são de esquerda, mas que preferiram tratar desses episódios não por meio da contestação da narrativa esquerdista, mas pelo esforço de se adequar a ela ou pelo menos não confrontá-la. Qual a razão dessa postura, dessa concessão ao politicamente correto por parte de quem não é de esquerda? Ficar bem na foto com os colegas de redação daquele jornal, ou daquela revista, ou daquela emissora de televisão?

Não se combate nem se enfrenta o politicamente correto respeitando seus pressupostos. É preciso fazer exatamente o oposto: é necessário contestar as imposições do politicamente correto a partir do desmascaramento de suas teses centrais, como ressocialização de criminosos, justiça social e outras palavras-gatilho que a esquerda criou justamente para estabelecer as fronteiras do campo de discussão admissível e aceitável. É preciso romper essas fronteiras, e não se limitar a elas com um discurso supostamente mais racional. Uma racionalidade que apenas esconde a covardia de não fazer a guerra política contra a esquerda da maneira que ela deve ser feita

Meryl Streep e o que tem a dizer Theodore Dalrymple

meryl-streep_theodore-dalrympleMeryl Streep, atriz que já até interpretou Margaret Thatcher, no filme intitulado “The Iron Lady” (A Dama de Ferro), preferiu converter o seu discurso no Golden Globe Awards num episódio de lamúrias. Nada surpreendente até aqui. Não é a primeira nem será a última vez que, não conformada com a eleição de Trump, a elite pro-estabilishment ainda não tenha superado tamanho resentment. M. Streep, apesar do brilhantismo, foi só mais uma — na ocasião, cercada de raros forasteiros, porém legalizados e não menos milionários que ela –, a destilar do alto de suas muralhas, o rancor à plebe. A figura central era Trump, obackground, todavia, é maior que Trump: é todo o americano médio que de facto assiste ao mundo de uma Streep assim como assiste à Chocolate Factory de Roald Dahl. O cerne da coisa permanece o mesmo: o mundo hollywoodiano para a working-class americana, não passa de uma Wonderland, e a esta, a atriz nada tem a dizer. Não passa de uma realidade glamourizada, quase fictícia… Out of touch! Com status de utopia.

O que chega aos ouvidos de quem elegeu Trump, ora… ora…! A Fiat anunciou que investirá um bilhão em Michigan e Ohio, criando duas mil vagas de empregos. Este, naturalmente, não é o dialeto falado en Hollywood.

À parte o que fora dito, por ora, interessam-me dois simples pontos: a atriz acusou Trump de ter zombado de um jornalista do NYT, e isto é falso. O outro, diz respeito ao cafajeste apelo sentimentalista ao público. “Um dos problemas de nossa época é que as pessoas não mais pensam, elas tão-só sentem”, dizia Lady Margaret Thatcher. Com o acréscimo de “aparentar sentir o que se diz sentir”, a coisa está ipis litteris descrita.

A acusação levantada contra Donald Trump pela atriz não é nova, vem sendo repetida pela Left-Wing ad nauseam desde o ano retrasado quando na ocasião Donald Trump se dirigiu ao então jornalista deficiente, Serge Kovaleski, a respeito de uma polêmica em que Kovaleski teria reportado que havia americanos de ascendência árabe celebrando o atentado às Torres Gêmeas. Trump havia antes feito a mesma alegação, e jornais como o The Washington Post (no qual trabalhava o jornalista à época) o teriam desmentido. Trump relembrou o então artigo escrito por Kovaleski, recentemente, e o jornalista por sua vez afirmou não se lembrar dos detalhes do caso. Daí toda a polêmica. Trump ao referir-se ao dito cujo teria gesticulado com as mãos de modo a imitar o jornalista deficiente. Não só o Trump ele próprio desmentiu, como também há vídeos do mesmo se referindo a Ted Cruz (candidato a representar o GOP nas primárias) gesticulando da mesma forma.

Mas a mentira desce fácil. Conta com lubrificantes. Travista-a uma só vez de sentimentalismo que a mentira tornar-se-á verdade. Eis o espírito da época. Somente numa época em que demonstrações públicas exageradas (exagerado é um predicativo que a pouco se tornará desnecessário) são cultuadas como expressões virtuosas, Streeps são tidas como verdadeiras, apesar de falsas; e quando o sentimentalismo torna-se normativo, não importam a verdade, a sanidade e a responsabilidade. Tudo é verdade, desde que sentimentalmente verdade. O perigo disto é patente. O couro fino da nossa época também nos afinou as córneas e, portanto, são poucos os que vêem, menos ainda os que discernem. Theodore Dalrymple emPodres de Mimados alerta:

À primeira vista, essa doutrina pode parecer profundamente imaginativa e compassiva, mas a realidade é bem diversa: ela é, ou pelo menos pode ser (como veremos), uma máscara para a mais completa indiferença para com o sofrimento alheio. Ela dá a entender que todo sofrimento deve ser considerado a partir da própria estimativa do sofredor, o que significa que sofre mais quem expressa o sofrimento com mais força ou, pele menos, com mais veemência

As consequências disto, dentre muitas, se sobressai a principal: o patrulhamento, pois se tornou normativo; a coerção, pois se tornou ameaçador:

[…] quando o sentimentalismo se torna um fenômeno público de massa, ele se torna manipulador de um jeito agressivo: exige que todos tomem parte. Um homem que se recuse, afirmando não acreditar que o pretenso objeto de sentimento seja digno de exibição demonstrativa, coloca-se fora do âmbito dos virtuosos e torna-se praticamente um inimigo do povo. Sua culpa é política, uma recusa em reconhecer a verdade do velho adágio vox populi, vox dei. O sentimentalismo então se torna coercitivo, isto é, manipulador de maneira ameaçadora.

O texto merece a abjeta repulsa, a culpa política e a coerção da patrulha do politicamente correto. Assim também o merece o autor. Nós seremos um Cronos, um Ciclope. Vilipendiados, estejam cientes. Mas também estaremos com a verdade de modo tão absoluto quanto os condenados ao Inferno de Dante.

Pobre mas livre

Guy Franco

 

As cabeças mais brilhantes e iluminadas do país reclamam dos resultados da última eleição municipal. Principalmente em São Paulo. Vi muita gente esculachando a periferia, que preferiu eleger um playboy capitalista a um prefeito cujo governo foi quase todo voltado para o centro expandido da capital. São pessoas que sabem do que falam. Afinal, votam pelo pobre. E quem melhor do que pessoas esclarecidas que votam e pensam e falam pelo pobre para dizer aos pobres o que é melhor para a vida deles?

São os guardiões do Bem e da Verdade. Mas aos olhos desses super-heróis da comiseração, parece que o pobre não é exatamente um indivíduo autônomo capaz de pensar por si e escolher seu caminho na vida sem uma mão paternalista para os conduzir. O pobre está mais para um cão abandonado na rua que depende da generosidade de terceiros; no caso, da generosidade dos eleitores politicamente esclarecidos.

Ou é isso ou o pobre é um desinformado, burro, sem instrução; um estorvo físico que deveria ser extirpado do planeta, como li estes dias na página de um intelectual e professor da Universidade de Brasília.

Esse tipo de pensamento não é novidade e vive aparecendo na internet – mais do que fora dela, claro, porque o eleitor bom, justo e politicamente esclarecido do centro expandido dificilmente cruza na rua com alguém que mora em Guaianases ou Cidade Ademar (nem sabe apontar no mapa da cidade onde esses bairros ficam).

Não é fácil ser pobre no Brasil ou em São Paulo. O pobre, aqui, não tem autonomia sobre a própria vida, sobre as próprias escolhas. O circo em volta dele tenta de todas as maneiras prolongar a sua dependência. É mais vantagem o pobre como um sujeito infantil e com a maturidade de um mamão verde do que uma pessoa crescida e independente. O pobre independente não serve mais para a causa. E quem não serve para a causa pode e deve ser esculachado, entre outras coisas.

Você é Conservador(a)? O que é Conservadorismo?

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Publicado por Rafael Merlo em 10 Mar, 2013 – Conservadorismo, Destaque | 10 comments

Embora possamos identificar a presença de alguns valores conservadores na nossa sociedade, os conservadores brasileiros estão muito distantes do discurso político no país. Quase toda definição de “conservador” ou “conservadorismo” que encontramos na grande mídia tem sido propagada por quem tem motivos ideológicos de sobra para distorcer essas definições (a esmagadora maioria ligada ao pensamento de esquerda – políticos, cientistas sociais, educadores, editores, jornalistas, etc).

Portanto, qualquer um que queira responder seriamente as perguntas do título deste artigo deve fugir do senso comum e voltar seus olhos para onde existe alguma tradição no estudo do Conservadorismo – especialmente Reino Unido e Estados Unidos.

O Conservadorismo difere das correntes políticas por não possuir uma ideologia, ou seja, não conter um corpo doutrinário que deva ser levado às últimas consequências. Não há um autor central, nem um “livro sagrado” do Conservadorismo.

No entanto, o principal autor que se propôs a responder as perguntas deste artigo foi Russel Kirk. Como resultado de sua tese de doutorado, Kirk publicou o livro The Conservative Mind: from Burke to Eliot, em 1953. Nele, Kirk analisou os escritos dos principais autores conservadores entre os séculos XVIII e XX, em busca do núcleo comum que constitui o pensamento conservador.

Deixando claro não se tratar de uma lista rígida de dogmas, Kirk observou um conjunto de características quase sempre presentes nas opiniões dos conservadores. Sua principal publicação, especificamente sobre essa questão, é o artigo Ten Conservative Principles (tradução, Dez Princípios Conservadores).

Recomendamos a leitura do artigo original, bem como a leitura de uma versão condensada do livro The Conservative Mind, produzida pelo Alabama Policy Institute.

Abaixo, apresentamos uma adaptação de alguns dos princípios conservadores, para que o leitor possa compreender um pouco do pensamento conservador e também aferir quanto o Conservadorismo converge ou diverge de suas convicções pessoais.

Concordar com os princípios do Conservadorismo não implica em conflito com sua religião, raça, orientação ou gênero. Abraham Lincoln, Martin Luther King e Margaret Thatcher são exemplos de personalidades notáveis que aderiram a princípios conservadores, assim como existem diversos conservadores que são gays, ateus, etc.

Você é Conservador(a)? Abaixo, alguns pontos do pensamento Conservador:

Existe uma ordem moral transcendente e imutável que governa a sociedade, e que pode ser apreendida pelos homens através da experiência de várias gerações.

O conservador é guiado por um forte senso de certo e errado, que são conceitos absolutos. Não há espaço para o relativismo moral: para o conservador, o fim jamais justifica os meios.

O conservador acredita que a mudança é um meio necessário para a conservação e aprimoramento da ordem social.

Mas nem toda a mudança é para melhor. Mudanças precipitadas podem destruir a ordem social. O conservador adota a prudência diante das mudanças radicais, buscando entender suas consequências futuras acima de seus efeitos superficiais imediatos.

O conservador entende que os costumes e convenções, herdados das gerações passadas, passaram pelo teste do tempo: são o resultado de séculos de tentativa, reflexão e sacrifício. Por isso, devem balizar as mudanças na sociedade.

O conservador tem afeição pela diversidade da existência humana, em oposição à uniformidade e ao igualitarismo dos sistema radicais. Os conservadores não procuram forçar a uniformidade sobre a humanidade.

O conservador afirma a igualdade perante Deus e os tribunais. Qualquer outra tentativa de nivelamento leva à estagnação social ou a novas formas de desigualdades pelas mãos de tiranos.

Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita jamais poderá ser criada. Buscar uma utopia é terminar em desastre. O que podemos esperar é uma sociedade razoavelmente ordenada, justa e livre. Através de reformas prudentes, podemos preservar e aperfeiçoar a ordem social.

Ganhar e gastar não são os objetivos principais da existência humana, mas sim a construção de uma base econômica sólida para as pessoas, as famílias e a comunidade. Redistribuição de riquezas, através de taxas e outros meios, não é sinônimo de progresso econômico.

Liberdade e propriedade privada estão intrínsecamente ligadas. Sem a propriedade privada, o poder do Estado sobre os indivíduos é incontrolável.

O conservador é movido por um desejo de descentralização do poder, menor interferência governamental e maior liberdade individual.