Meryl Streep e o que tem a dizer Theodore Dalrymple

meryl-streep_theodore-dalrympleMeryl Streep, atriz que já até interpretou Margaret Thatcher, no filme intitulado “The Iron Lady” (A Dama de Ferro), preferiu converter o seu discurso no Golden Globe Awards num episódio de lamúrias. Nada surpreendente até aqui. Não é a primeira nem será a última vez que, não conformada com a eleição de Trump, a elite pro-estabilishment ainda não tenha superado tamanho resentment. M. Streep, apesar do brilhantismo, foi só mais uma — na ocasião, cercada de raros forasteiros, porém legalizados e não menos milionários que ela –, a destilar do alto de suas muralhas, o rancor à plebe. A figura central era Trump, obackground, todavia, é maior que Trump: é todo o americano médio que de facto assiste ao mundo de uma Streep assim como assiste à Chocolate Factory de Roald Dahl. O cerne da coisa permanece o mesmo: o mundo hollywoodiano para a working-class americana, não passa de uma Wonderland, e a esta, a atriz nada tem a dizer. Não passa de uma realidade glamourizada, quase fictícia… Out of touch! Com status de utopia.

O que chega aos ouvidos de quem elegeu Trump, ora… ora…! A Fiat anunciou que investirá um bilhão em Michigan e Ohio, criando duas mil vagas de empregos. Este, naturalmente, não é o dialeto falado en Hollywood.

À parte o que fora dito, por ora, interessam-me dois simples pontos: a atriz acusou Trump de ter zombado de um jornalista do NYT, e isto é falso. O outro, diz respeito ao cafajeste apelo sentimentalista ao público. “Um dos problemas de nossa época é que as pessoas não mais pensam, elas tão-só sentem”, dizia Lady Margaret Thatcher. Com o acréscimo de “aparentar sentir o que se diz sentir”, a coisa está ipis litteris descrita.

A acusação levantada contra Donald Trump pela atriz não é nova, vem sendo repetida pela Left-Wing ad nauseam desde o ano retrasado quando na ocasião Donald Trump se dirigiu ao então jornalista deficiente, Serge Kovaleski, a respeito de uma polêmica em que Kovaleski teria reportado que havia americanos de ascendência árabe celebrando o atentado às Torres Gêmeas. Trump havia antes feito a mesma alegação, e jornais como o The Washington Post (no qual trabalhava o jornalista à época) o teriam desmentido. Trump relembrou o então artigo escrito por Kovaleski, recentemente, e o jornalista por sua vez afirmou não se lembrar dos detalhes do caso. Daí toda a polêmica. Trump ao referir-se ao dito cujo teria gesticulado com as mãos de modo a imitar o jornalista deficiente. Não só o Trump ele próprio desmentiu, como também há vídeos do mesmo se referindo a Ted Cruz (candidato a representar o GOP nas primárias) gesticulando da mesma forma.

Mas a mentira desce fácil. Conta com lubrificantes. Travista-a uma só vez de sentimentalismo que a mentira tornar-se-á verdade. Eis o espírito da época. Somente numa época em que demonstrações públicas exageradas (exagerado é um predicativo que a pouco se tornará desnecessário) são cultuadas como expressões virtuosas, Streeps são tidas como verdadeiras, apesar de falsas; e quando o sentimentalismo torna-se normativo, não importam a verdade, a sanidade e a responsabilidade. Tudo é verdade, desde que sentimentalmente verdade. O perigo disto é patente. O couro fino da nossa época também nos afinou as córneas e, portanto, são poucos os que vêem, menos ainda os que discernem. Theodore Dalrymple emPodres de Mimados alerta:

À primeira vista, essa doutrina pode parecer profundamente imaginativa e compassiva, mas a realidade é bem diversa: ela é, ou pelo menos pode ser (como veremos), uma máscara para a mais completa indiferença para com o sofrimento alheio. Ela dá a entender que todo sofrimento deve ser considerado a partir da própria estimativa do sofredor, o que significa que sofre mais quem expressa o sofrimento com mais força ou, pele menos, com mais veemência

As consequências disto, dentre muitas, se sobressai a principal: o patrulhamento, pois se tornou normativo; a coerção, pois se tornou ameaçador:

[…] quando o sentimentalismo se torna um fenômeno público de massa, ele se torna manipulador de um jeito agressivo: exige que todos tomem parte. Um homem que se recuse, afirmando não acreditar que o pretenso objeto de sentimento seja digno de exibição demonstrativa, coloca-se fora do âmbito dos virtuosos e torna-se praticamente um inimigo do povo. Sua culpa é política, uma recusa em reconhecer a verdade do velho adágio vox populi, vox dei. O sentimentalismo então se torna coercitivo, isto é, manipulador de maneira ameaçadora.

O texto merece a abjeta repulsa, a culpa política e a coerção da patrulha do politicamente correto. Assim também o merece o autor. Nós seremos um Cronos, um Ciclope. Vilipendiados, estejam cientes. Mas também estaremos com a verdade de modo tão absoluto quanto os condenados ao Inferno de Dante.

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