Arquivo mensal: novembro 2015

A neurose na filosofia: o reino da auto-exaltação

“Não há talento que ele não degrade / Não há ciência e saber que ele, à porfia, / Não ache aquém de sua majestade”.

Emílio de Meneses

 

Sidney Silveira

Dizia Adler que o neurótico é vítima da realidade imaginária que elegeu como diretriz ou finalidade de vida. Em síntese, é o sujeito que escolhe um fim fictício para dar sentido à existência e busca satisfazer, simultaneamente, as exigências do mundo real e desse universo por ele inventado, mantendo-se cativo de uma tormentosa ambivalência.

Expliquemo-nos: em seus devaneios de grandeza, o neurótico aspira a coisas superiores, sublimes, mas esconde um radical sentimento de inferioridade que precisa ser — de alguma forma — compensado. Ele então cria um sofisticado sistema de mentiras para si mesmo e para as demais pessoas, por meio do qual manipula as próprias faculdades intelectivas e as coloca a serviço da finalidade quimérica produzida por sua imaginação. Daí afirmar Adler que o neurótico é, ao mesmo tempo, ambicioso e pusilânime: cobiça coisas que lhe dão um sentimento de quase divindade, mas sequer tem coragem de olhar-se no espelho da consciência.

É claro que essa falta de coragem é também dissimulada, pois o neurótico habilmente sufoca a consciência para apresentar as razões de seus ataques contra Deus e o mundo — justificar o perene ultimate fighting em que, inevitavelmente, transforma as suas relações com quaisquer pessoas que ponham em risco a sua fantasiosa auto-imagem. É como um sujeito mirrado, esquálido, que tresloucadamente se visse refletido no espelho como um gladiador invicto. Como se pode deduzir, a eriçada susceptibilidade do neurótico é a exata medida desse desajuste entre realidade e ficção, produto de uma vaidade sem limites que o faz considerar como “rivais” todos os que não contribuam instrumentalmente para a sua exaltação, indesejáveis oponentes a ser esmagados, destruídos a qualquer preço.

Tortuoso idealista, o neurótico é um Quixote cujos moinhos de vento são fruto de uma meta quase inconsciente: mascarar o seu complexo de inferioridade com o aplauso do mundo. Há, portanto, uma cupidez em toda neurose, pois o núcleo do caráter neurótico e todos os movimentos anímicos que dele emanam estão a serviço de uma confortante sensação de superioridade traduzida em sua pletórica auto-afirmação — que normalmente ocorre em detrimento de toda possível e incômoda afirmação das demais pessoas. Estas, na mente doentia do neurótico, não podem de forma alguma empanar o seu brilho, mitigar a sua “luz”. Desgraçadamente, tal sensação de superioridade não é outra coisa senão a atualização do medo atroz que o neurótico tem de olhar para si mesmo.

O riquíssimo universo interior da alma humana, ao qual Santa Teresa de Ávila chamava castelo interior, é dramaticamente empobrecido na pessoa neurótica. Daí ela tornar-se incapaz de estabelecer relações saudáveis, ou seja, relações que não sejam uma constante referência aos seus próprios talentos e feitos, reiterados cabotinamente ad nauseam. Nas palavras de Rufolph Allers, o neurótico padece de uma espécie de conflito metafísico, configurado na rebeldia interior que o transforma em alguém impossibilitado de aquilatar a realidade de forma objetiva. Em suma, ele abole as leis do mundo real por um arbitrário decreto de sua vontade hipertrofiada — vontade excitada pelo voraz anseio de superação de tudo e de todos, o que necessariamente lhe causa conflitos em progressão geométrica. Como se pode ver, por trás da neurose concebida nestes termos, há aquilo que a sã teologia católica sempre chamou desoberba.

É possível entrever, na história do pensamento humano, o neurótico por trás de muitas teorias erigidas sob a égide de uma pueril tentativa de destruição de tudo o que até então foi feito. Em poucas palavras, enfronhado nas coisas do espírito, o neurótico é o hipercrítico que, para exaltar-se, joga a criança fora com a água do banho — ou seja: desconstrói as realizações do passado com o mal-disfarçado propósito de colocar-se como “reinventor da roda”.

Alguns exemplos são bastante significativos:

 

Ø para Descartes, é evidente que a filosofia estava esperando por suadúvida metódica pautada em “idéias claras e distintas”, pois ele deixa bem claro que, até então, não as havia;

Ø Hume diz modestamente que o seu trabalho filosófico é análogo ao que Newton fez com a física: uma reviravolta completa, portadora de novas luzes para a filosofia;

 

Ø Kant, que despertara do “sonho dogmático” lendo Hume, afirma estar realizando nada menos que uma revolução copernicana. De fato a sua obra representara uma revolução, porém no sentido pejorativo, devido à total desarticulação entre a inteligência e a realidadeimplicada em seu criticismo;

 

Ø Heidegger “descobre” que, desde os pré-socráticos até ele — obviamente —, toda a história da filosofia esqueceu-se do ser e só abordou o ente (vê-se, aqui, como o autor alemão, que lera Santo Tomás, não o conseguiu compreender);

 

Ø Husserl afirma que o seu método da redução eidética é inédito e trará novos horizontes para o filosofar;

 

Ø Xavier Zubiri tenta demolir a noção aristotélica de substância e a teoria tomista da abstração, mas, com a sua inteligencia sentiente — apresentada como novidade gnosiológica ímpar, embora seja uma roupagem nova para uma mescla de teses presentes na filosofia medieval —, engendra aporias sem fim;

 

Ø Nietzsche, que se autoproclama um profeta cuja obra está muito além do seu tempo, quer não apenas pôr abaixo quase tudo o que foi feito até então, mas ser ele próprio o vértice de uma transvaloração de todos os valores, que prenunciará o homem do porvir;

 

Ø Freud acredita piamente que a sua psicanálise é o último elo do desenvolvimento pós-moral do homem;

 

Ø Sartre, afetando um desdém superior em relação a dois milênios de tradição cristã, leva as premissas fenomenológicas de Husserl e Heidegger às últimas conseqüências e estabelece um niilismo demolidor e sem saída. Nada mais.

Pois bem. Olhadas através de uma lupa crítica, as teorias engendradas por esses e outros precursores do mundo contemporâneo padecem de incongruências reveladoras do estado mental que lhes serviu de substrato, no momento em que estabeleciam as suas principais teses. Mas ainda está por ser feito um acurado estudo psicológico que demonstre cabalmente tratar-se de teorias filhas da neurose, ou seja, nascidas de transtornos narcísicos em que o padrão de grandiosidade resulta num corrosivo e infértil afã de novidade.

Teorias que provêm de uma desordem do caráter nascida do mais delirante egocentrismo, e, portanto, incapazes de se elevar à instância noética onde repousa a Verdade — imaterial, una, indivisa, imutável, sem contradições de nenhuma ordem.

“Não há talento que ele não degrade / Não há ciência e saber que ele, à porfia, / Não ache aquém de sua majestade”.

Emílio de Meneses

 

Sidney Silveira

Dizia Adler que o neurótico é vítima da realidade imaginária que elegeu como diretriz ou finalidade de vida. Em síntese, é o sujeito que escolhe um fim fictício para dar sentido à existência e busca satisfazer, simultaneamente, as exigências do mundo real e desse universo por ele inventado, mantendo-se cativo de uma tormentosa ambivalência.

Expliquemo-nos: em seus devaneios de grandeza, o neurótico aspira a coisas superiores, sublimes, mas esconde um radical sentimento de inferioridade que precisa ser — de alguma forma — compensado. Ele então cria um sofisticado sistema de mentiras para si mesmo e para as demais pessoas, por meio do qual manipula as próprias faculdades intelectivas e as coloca a serviço da finalidade quimérica produzida por sua imaginação. Daí afirmar Adler que o neurótico é, ao mesmo tempo, ambicioso e pusilânime: cobiça coisas que lhe dão um sentimento de quase divindade, mas sequer tem coragem de olhar-se no espelho da consciência.

É claro que essa falta de coragem é também dissimulada, pois o neurótico habilmente sufoca a consciência para apresentar as razões de seus ataques contra Deus e o mundo — justificar o perene ultimate fighting em que, inevitavelmente, transforma as suas relações com quaisquer pessoas que ponham em risco a sua fantasiosa auto-imagem. É como um sujeito mirrado, esquálido, que tresloucadamente se visse refletido no espelho como um gladiador invicto. Como se pode deduzir, a eriçada susceptibilidade do neurótico é a exata medida desse desajuste entre realidade e ficção, produto de uma vaidade sem limites que o faz considerar como “rivais” todos os que não contribuam instrumentalmente para a sua exaltação, indesejáveis oponentes a ser esmagados, destruídos a qualquer preço.

Tortuoso idealista, o neurótico é um Quixote cujos moinhos de vento são fruto de uma meta quase inconsciente: mascarar o seu complexo de inferioridade com o aplauso do mundo. Há, portanto, uma cupidez em toda neurose, pois o núcleo do caráter neurótico e todos os movimentos anímicos que dele emanam estão a serviço de uma confortante sensação de superioridade traduzida em sua pletórica auto-afirmação — que normalmente ocorre em detrimento de toda possível e incômoda afirmação das demais pessoas. Estas, na mente doentia do neurótico, não podem de forma alguma empanar o seu brilho, mitigar a sua “luz”. Desgraçadamente, tal sensação de superioridade não é outra coisa senão a atualização do medo atroz que o neurótico tem de olhar para si mesmo.

O riquíssimo universo interior da alma humana, ao qual Santa Teresa de Ávila chamava castelo interior, é dramaticamente empobrecido na pessoa neurótica. Daí ela tornar-se incapaz de estabelecer relações saudáveis, ou seja, relações que não sejam uma constante referência aos seus próprios talentos e feitos, reiterados cabotinamente ad nauseam. Nas palavras de Rufolph Allers, o neurótico padece de uma espécie de conflito metafísico, configurado na rebeldia interior que o transforma em alguém impossibilitado de aquilatar a realidade de forma objetiva. Em suma, ele abole as leis do mundo real por um arbitrário decreto de sua vontade hipertrofiada — vontade excitada pelo voraz anseio de superação de tudo e de todos, o que necessariamente lhe causa conflitos em progressão geométrica. Como se pode ver, por trás da neurose concebida nestes termos, há aquilo que a sã teologia católica sempre chamou desoberba.

É possível entrever, na história do pensamento humano, o neurótico por trás de muitas teorias erigidas sob a égide de uma pueril tentativa de destruição de tudo o que até então foi feito. Em poucas palavras, enfronhado nas coisas do espírito, o neurótico é o hipercrítico que, para exaltar-se, joga a criança fora com a água do banho — ou seja: desconstrói as realizações do passado com o mal-disfarçado propósito de colocar-se como “reinventor da roda”.

Alguns exemplos são bastante significativos:

 

Ø para Descartes, é evidente que a filosofia estava esperando por suadúvida metódica pautada em “idéias claras e distintas”, pois ele deixa bem claro que, até então, não as havia;

Ø Hume diz modestamente que o seu trabalho filosófico é análogo ao que Newton fez com a física: uma reviravolta completa, portadora de novas luzes para a filosofia;

 

Ø Kant, que despertara do “sonho dogmático” lendo Hume, afirma estar realizando nada menos que uma revolução copernicana. De fato a sua obra representara uma revolução, porém no sentido pejorativo, devido à total desarticulação entre a inteligência e a realidadeimplicada em seu criticismo;

 

Ø Heidegger “descobre” que, desde os pré-socráticos até ele — obviamente —, toda a história da filosofia esqueceu-se do ser e só abordou o ente (vê-se, aqui, como o autor alemão, que lera Santo Tomás, não o conseguiu compreender);

 

Ø Husserl afirma que o seu método da redução eidética é inédito e trará novos horizontes para o filosofar;

 

Ø Xavier Zubiri tenta demolir a noção aristotélica de substância e a teoria tomista da abstração, mas, com a sua inteligencia sentiente — apresentada como novidade gnosiológica ímpar, embora seja uma roupagem nova para uma mescla de teses presentes na filosofia medieval —, engendra aporias sem fim;

 

Ø Nietzsche, que se autoproclama um profeta cuja obra está muito além do seu tempo, quer não apenas pôr abaixo quase tudo o que foi feito até então, mas ser ele próprio o vértice de uma transvaloração de todos os valores, que prenunciará o homem do porvir;

 

Ø Freud acredita piamente que a sua psicanálise é o último elo do desenvolvimento pós-moral do homem;

 

Ø Sartre, afetando um desdém superior em relação a dois milênios de tradição cristã, leva as premissas fenomenológicas de Husserl e Heidegger às últimas conseqüências e estabelece um niilismo demolidor e sem saída. Nada mais.

Pois bem. Olhadas através de uma lupa crítica, as teorias engendradas por esses e outros precursores do mundo contemporâneo padecem de incongruências reveladoras do estado mental que lhes serviu de substrato, no momento em que estabeleciam as suas principais teses. Mas ainda está por ser feito um acurado estudo psicológico que demonstre cabalmente tratar-se de teorias filhas da neurose, ou seja, nascidas de transtornos narcísicos em que o padrão de grandiosidade resulta num corrosivo e infértil afã de novidade.

Teorias que provêm de uma desordem do caráter nascida do mais delirante egocentrismo, e, portanto, incapazes de se elevar à instância noética onde repousa a Verdade — imaterial, una, indivisa, imutável, sem contradições de nenhuma ordem.