Arquivo mensal: outubro 2015

Ao contrário do que diz a imprensa, o Banco Central americano não tem como “elevar os juros”

O assunto simplesmente não sai da mídia. O novo “terror” do momento é a suposta iminência de um aumento da taxa básica de juros nos Estados Unidos, pelo Banco Central americano, já agora em dezembro.
Há apenas um problema: ninguém ainda explicou exatamente como isso seria possível.

O que o Fed controla

Comecemos pelo básico: o Fed — o Banco Central americano — não controla todas as taxas de juros da economia americana. Ele não controla as taxas de juros sobre os títulos públicos de 6 meses, 5 anos, 10 anos ou 30 anos. Essas taxas são livremente determinadas pelo mercado. Logo, ele não pode elevar os juros desses papeis. Ele não tem nenhum poder sobre estes juros. (O mesmo, aliás, é válido para todos os outros Bancos Centrais do mundo).

O Fed controla uma única taxa de juros, a qual, nos EUA é chamada de “Federal Funds Rate”. Essa taxa (idêntica à SELIC brasileira) representa a taxa de juros que os bancos cobram entre si no mercado interbancário para emprestar (ou tomar emprestado) dinheiro que possuem em suas reservas, por um dia de duração.

Os bancos recorrem a essas operações interbancárias diariamente porque, ao final de cada dia, precisam manter um determinado volume de dinheiro em suas reservas. (Esse volume de reservas é o equivalente a uma determinada porcentagem do total de seus depósitos, e é determinado pelo Banco Central; chama-se compulsório).

O Banco Central, por meio de suas injeções monetárias neste mercado interbancário — ele cria dinheiro para comprar títulos públicos em posse dos bancos e destrói dinheiro ao vender títulos públicos para os bancos —, afeta a taxa de juros do mercado interbancário e, com isso, é capaz de determinar a taxa básica de juros da economia.

Esta é a única taxa que ele de fato pode controlar.

O gráfico abaixo mostra a evolução de três taxas de juros da economia americana.

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A linha inteiriça laranja representa a “Federal Funds Rate” (a nossa SELIC), que é a única taxa que o Fed controla. A linha laranja pontilhada representa a taxa de juros paga por título públicos com prazo de vencimento de 2 anos. Já linha cinza representa a taxa de juros paga por títulos públicos com prazo de vencimento de 10 anos.

A única taxa que o Fed controla diretamente é aquela que está totalmente horizontal.

O problema

Só que há um enorme problema: a demanda dos bancos por empréstimos no mercado interbancário está praticamente nula. Os bancos não estão demandando empréstimos um dos outros neste mercado. E isso nunca havia acontecido antes.

Por quê?

Porque o Fed, em resposta à crise financeira de 2008, tomou duas atitudes: a primeira, típica de países latino-americanos da década de 1980; a segunda, completamente inédita nos anais da teoria macroeconômica e jamais discutida nem sequer como hipótese em nenhum livro-texto de economia.

A primeira medida foi imprimir dinheiro a rodo e entregar esse dinheiro aos bancos em troca de título podres que estes carregavam. Tratou-se de uma medida que, na prática, tinha a intenção de limpar os balancetes dos bancos.

O gráfico a seguir mostra o que ocorreu com a base monetária americana em decorrência desta medida:

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Tamanha injeção de dinheiro no sistema bancário iria, segunda a teoria macroeconômica, degenerar em hiperinflação caso os bancos decidissem emprestar todo esse dinheiro para pessoas e empresas.

Vale enfatizar que, no atual arranjo financeiro, o Fed (bem como o Banco Central brasileiro) não injeta dinheiro diretamente na economia; ele injeta dinheiro apenas nos bancos, e os bancos é que decidem se irão despejar este dinheiro na economia (por meio da criação de crédito. Se os bancos não quiserem despejar este dinheiro na economia, não há nenhum risco de inflação de preços.

E foi aí que o Fed teve então a sua segunda ideia, completamente inédita na história dos Bancos Centrais: para impedir que toda esta dinheirama fosse emprestada pelos bancos, ele simplesmente decidiu pagar aos bancos juros anuais de 0,25% sobre todo e qualquer dinheiro que os bancos voluntariamente deixassem parado no Fed.

Normalmente, um Banco Central paga juros aos bancos apenas sobre o valor do compulsório. Nos EUA, no entanto, o Fed criou a política de pagar juros para todo e qualquer montante que os bancos voluntariamente deixem parados no Fed.

Ou seja, de um lado, o Fed imprimiu (eletronicamente) trilhões de dólares e entregou esse valor aos bancos em troca de títulos podres que estavam em posse destes bancos; de outro, ele começou a pagar, para os bancos, juros de 0,25% sobre todo este dinheiro.

Tão logo o Fed adotou essa prática, a taxa de juros do mercado interbancário caiu para quase zero. E esta taxa de 0,25% acabou se tornando a taxa básica de juros da economia americana.

A consequência disso é que os bancos americanos estão hoje com US$ 2,6 trilhões de “reservas em excesso” voluntariamente estacionadas no cofre eletrônico do Fed.

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Consequentemente, com todo este excesso de reservas, nenhum banco tem de ir ao mercado interbancário pedir dinheiro emprestado para outro banco com o intuito de manter um determinado volume de dinheiro em suas reservas. O sistema bancário americano está hoje inundado de dinheiro na forma de reservas em excesso. Nenhum banco precisa mais se preocupar com a hipótese de não ter reservas suficientes. Nenhum banco precisa se preocupar em recorrer ao mercado interbancário para pedir dinheiro emprestado.

Sendo assim, para o Fed elevar a taxa básica de juros — que é a taxa de juros do mercado interbancário —, ele teria de enxugar uma boa parte desses trilhões de dólares que estão nas reservas em excesso. Isso exigiria uma venda maciça, pelo Fed, de títulos públicos para esses bancos.

Na prática, o Fed teria de fazer uma liquidação maciça de títulos públicos de 3 meses, 6 meses, 2 anos, 5 anos, 10 anos, 30 anos, títulos de Fannie Mae e Freddie Mac, títulos lastreados em hipotecas, títulos lastreados em empréstimos estudantis, títulos lastreados em crediário para automóveis etc. Em suma, ele teria de pegar seu portfólio e, em cada categoria de ativo, teria de vender esses ativos no mercado.

Obviamente, se ele fizer essa liquidação, os preços desses ativos iriam desabar, o que significa que as taxas de juros desses ativos iriam disparar. Com a disparada das taxas de juros de todos esses papeis, os juros para todos os empréstimos iriam subir concomitantemente.

E o governo, obviamente, não quer isso.

O que o Fed realmente pode fazer

A única política monetária que o Fed realmente pode fazer é elevar a taxa de juros que ele paga sobre todas essas reservas em excesso que os bancos mantêm depositadas junto ao Fed.

Se atualmente ele paga uma taxa de 0,25% ao ano, ele pode elevá-la para, por exemplo, 0,5%;

Isso ele pode fazer quando quiser.

Mas isso gera alguns problemas.

Ao contrário de todas as outras operações de política monetária, esse dinheiro com o qual o Fed paga juros de 0,25% aos bancos não é criado eletronicamente por ele. Esse dinheiro advém dos lucros operacionais do Fed.

Em termos puramente contábeis, esse dinheiro é retirado do patrimônio líquido do Fed e colocado em seu passivo (as reservas bancárias representam contabilmente um passivo para o Fed).

Sendo assim, se o Fed elevar os juros de 0,25% para, digamos, 0,5% ou até mesmo 1%, não apenas os lucros operacionais do Fed serão brutalmente reduzidos, como também será reduzido o montante que o Fed repassa anualmente ao Tesouro.

Legalmente, o Fed é obrigado a repassar o Tesouro americano todo o dinheiro que ele obteve de lucro menos o necessário para cobrir suas operações.

Se o Fed elevar os juros que paga sobre as reservas em excesso, o orçamento do governo federal americano sofrerá um baque. Cada centavo que o Fed paga sobre as reservas em excesso é um centavo a menos que não pode ser dado ao Tesouro americano ao final de cada ano fiscal. Consequentemente, se o Fed elevar os juros, o déficit orçamentário do governo federal americano irá aumentar.

Por último, se os bancos estão dispostos a manter US$ 2,6 trilhões de dólares estacionados no Fed em troca de 0,25% ao ano, quanto mais eles estariam dispostos a manter estacionado no Fed em troca de, digamos, 1% ao ano? Certamente, muito mais.

Logo, o Fed irá gastar ainda mais com juros. E, consequentemente, o Tesouro receberá ainda menos repasses.

Não obstante esses problemas, essa é a única taxa de juros que o Fed realmente pode elevar.

Portanto, quando se fala que “o Fed irá aumentar os juros em dezembro”, a pergunta a ser feita é: qual taxa de juros exatamente o Fed irá elevar? Como ele irá fazer isso?

Até hoje, nunca foi publicado na mídia especializada um único artigo explicando exatamente como o Fed irá “elevar os juros”.

Desde meados de 2013 há essa “ameaça” de aumento dos juros. E ela nunca se concretiza. Há várias razões econômicas e contábeis para isso.

Conclusão

Quando o Fed, em outubro de 2008, adotou a política de pagar juros sobre toda e qualquer reserva em excesso voluntariamente mantida pelos bancos no Banco Central, ele revolucionou completamente as práticas dos Bancos Centrais. Nenhum livro-texto, nem mesmo os próprios livros publicados pelo Fed, jamais discutiu essa hipótese.

Tal política, com efeito, colocou uma rolha no mecanismo de transmissão entre a expansão da base monetária e o aumento da quantidade de dinheiro na economia. Esse mecanismo de transmissão foi rompido. A relação entre aumento da base monetária e aumento de M1, M2, M3 e M4 foi quebrada. Não há manual de macroeconomia que discuta essa possibilidade.

Consequentemente, há uma nova era na economia americana no que diz respeito a práticas de Banco Centrais. Qualquer economista que queira apresentar uma teoria sobre hiperinflação nos EUA em decorrência da volumosa expansão da base monetária terá de explicar como essa hiperinflação poderá ocorrer agora que o Fed descobriu essa prática de pagar juros sobre todo e qualquer dinheiro que os bancos voluntariamente depositem no Fed.

Com essa medida de pagar juros sobre todo e qualquer depósito voluntário que os bancos depositarem no Fed, a possibilidade de hiperinflação é praticamente nula.

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Leia também:

Qual é a estratégia de saída do Fed?

O que o Fed poderá fazer

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Autores:

Gary North, ex-membro adjunto do Mises Institute, é o autor de vários livros sobre economia, ética e história.

Leandro Roque, editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

Da simpatia cínica à corrupção política

Sidney Silveira

O brasileiro tornou-se recordista mundial da indignação fingida. Somos a terra dos zumbis que se auto-hipnotizaram de tanto respirar o ar fétido das relações insinceras, da informalidade compulsória, da superficialidade transformada em convenção social, da tristeza por motivos fúteis, da dissipação mental com aparência de alegria, da intelectualidade de verniz, da falsa espontaneidade, dos abraços fáceis, dos sorrisos inconseqüentes, do horror a normas e leis, do calor humano que esconde a mais terrível indiferença com relação ao próximo. É como se à nação inteira tivesse sido dada uma demoníaca beberagem, estranho elixir cujo efeito foi tornar as narinas brasileiras insensíveis ao fedor moral.

A estupidez generalizada por todos os estratos sociais, doença coletiva que nos acomete de maneira agônica, vai tornando a genuína amizade uma impossibilidade social. Entre nós, todo benfeitor parece fadado a beber o néctar da ingratidão, a constatar que, por trás da bonomia aparente, do presumível caráter pacífico, o brasileiro acabou por perder o vislumbre da verdadeira solidariedade. Em suma, na terra dos boas-praças, os vínculos interpessoais estão sempre à beira de romper-se: lânguidos, emotivos, hiper-sensíveis, patologicamente susceptíveis, somos um povo cheio de gente afetada por ninharias. Eis o motivo por que uma bobagem pode deflagrar reações desproporcionais, pôr fim a amizades de anos, ou melhor, a amizades fakes. Sim, porque uma amizade que acaba nunca começou — ou então começou torta, ou então começou unilateralmente, ou então começou pelos motivos errados.

Em contrapartida, coisas bastante sérias, atos gravíssimos, infrações éticas cabeludas, nada disso parece capaz de desfazer tais simulacros de amizade — entremeados de maledicência, de inveja, de disse-me-disse. Assim são as relações medíocres: conformadas ao que há de pior, chafurdadas porcinamente na lama, mas sem que ninguém reclame, devido a um tipo peculiar de osmose espiritual. Neste cenário, um sujeito injuria o outro, fala dele pelas costas (ou até pela frente), puxa-lhe o tapete no trabalho, mas tudo bem: ambos continuarão a manter a relação espúria da meia amizade, da empatia frívola medida por atos exteriores convencionais, como prendas de aniversário, telefonemas episódicos e saídas fortuitas para uma cervejinha.

Não é a troco de nada que o brasileiro costuma tomar qualquer objeção como afronta pessoal. Não é à toa que se sente mortalmente atingido ao ouvir pequenas verdades. Acostumado ao compadrio, ao multissecular jeitinho, aos favorecimentos mais ou menos ilícitos, a um horizonte de demagógica paz entre as pessoas, a não dizer o que pensa por medo de ser desagradável, ele virou um ser convenientemente híbrido. Trata-se de um anfíbio adaptável aos ambientes mais insalubres, amoldável às situações mais infames, em meio às quais costuma rir com desonra, tem por hábito escancarar os dentes com o ar mais malicioso do mundo. Sergio Buarque de Holanda, em meados do século passado, mostrou certo faro ao falar do “homem cordial” brasileiro, mas o seu diagnóstico carecia de profundidade filosófica e de base antropológica para poder chegar à clara visão das nossas deformidades.

Em nome da simpatia opressora que paira magicamente sobre as consciências, as pessoas sérias no Brasil são ridicularizadas nas empresas, nas escolas, nos clubes, nas esquinas. Aqui é vergonhoso ser ético, é socialmente condenável agir por princípios morais — pois o princípio geral, a norma consuetudinária de ação, sedimentada ao longo dos anos, é não ter princípio nenhum. Por isso as pessoas a quem o vulgo toma por inteligentes são em geral criaturas hipocritamente abertas a novidades as mais abstrusas. São também criaturas tendentes a seguir a boiada do momento, a opinião vigente difundida por engenheiros sociais. Hoje “somos todos Charlie”, amanhã “somos todos Amarildo”, depois de amanhã “não é apenas por vinte centavos”, e ao final de três dias não é bosta nenhuma — até surgir novo slogan deflagrador do frenesi, da histeria coletiva com ares de razoabilidade.

A nova geração de jovens belicosos, impermeáveis a qualquer opinião que não seja a do seu grupo, é efeito colateral do caráter indolente que dominou a nação por tanto tempo — conseqüência da afetividade desbragada na qual o Brasil foi aos poucos sucumbindo. A valentia desses pobres-diabos, maneira camuflada de auto-emulação, é uma forma lastimável de fraqueza ética. Na prática, valentões e covardões são antípodas complementares, pois entre a sinceridade orgulhosa e o comedimento hipócrita existe um liame secreto. Estes dois arquétipos humanos estão irmanados na hiper-sensibilidade psicótica que cresce a olhos vistos entre nós.

Neste ponto, digamos com tristeza: o brasileiro médio nunca se caracterizou pela afeição à racionalidade, mas sim pela emotividade fluida. Por isso sempre oscilou entre a irreligião de matiz agnóstico e o sincretismo religioso, que é uma forma de superstição — e mesmo o catolicismo em Pindorama sempre tangenciou a nossa atávica inclinação à superficialidade e à afetação social de intenções altruístas. Ora, misturar tudo é não tomar partido de nada, uma maneira elegante de ser covarde, e a verdadeira religiosidade implica ir a águas profundas, viver os dilemas humanos com ânimo corajoso, tomar partido, autoconhecer-se, não ter medo de perder amigos por amor à verdade.

No presente momento, o país está submerso no maior lodaçal político da história da República. Esta desgraça não surgiu do nada, pois é fruto de alguns graves defeitos do Brasil como coletividade difundida no tempo e no espaço. Defeitos que o ex-presidente Lula parece encarnar com notável perfeição: malandro, indolente, esperto, caviloso, preguiçoso, susceptível, etc. Neste cenário, vemos surgir uma profilática ojeriza cívica a gente com o perfil do Sr. da Silva, gente que a população não quer mais ver no poder. Pela primeira vez em muitíssimas décadas, aflora uma indignação veraz da parte das pessoas de bem que não suportam mais o estado de coisas em que vivemos.

É a oportunidade histórica de começarmos a expurgar das instituições tipos humanos representativos do pior que há no caráter nacional — e constatamos isto sem otimismos irresponsáveis, mas apenas como uma luz tênue neste horizonte enevoado.

Afinal de contas, se ao longo do tempo passamos do cinismo em forma de simpatia à corrupção política, será impossível fazermos da atual antipatia por nossos políticos o ponto de inflexão de uma mudança significativa?

Para entender o que se esconde por trás da alegação de “discurso de ódio” que atualmente pulula no Brasil para todos os lados que se olhe

Pérsio Menezes

Está em curso no Brasil o expediente de acusar de “discurso de ódio” qualquer crítica ou objeção à agenda da ideologia de esquerda. Faz-se necessário, a quem quer que se arvore a julgar como e de que forma determinada afirmação pode de fato ser considerada discurso de ódio, conhecer os motivos pelos quais isso está acontecendo para que seja possível discernir se realmente se trata de incitação ou ódio ou se, no lugar disso, a pecha de “discurso de ódio” está sendo usada como tentativa de desqualificação das críticas ao consenso esquerdista que se estabeleceu no país. A inabilidade em saber diferenciar estas duas situações colocará aquele que julga na condição de “idiota útil”, a qual consiste em estar executando, sem sequer se dar conta, planos traçados por terceiros para alcançar determinados objetivos ideológicos bem diferentes daqueles que o executor acredita estar perseguindo.

Brasil. Um país que viveu muitos anos sem debate político

Entre os legados nefastos dos anos em que os militares estiveram no poder, sem dúvida o mais tenebroso deles foi a supressão do debate público sobre política. O senso comum acredita que, como a Revolução de 64 foi instaurada para conter a aproximação com o eixo-comunista da então Guerra-Fria, tratava-se então de um regime de direita que perseguiu a esquerda — por sua vez os militares tomavam essa alegação por verdadeira e portavam-se como se assim fosse. Não obstante, a realidade dos fatos é bem outra. Todo o período militar foi pautado pela mentalidade tecnocrática, a qual buscava os resultados das políticas públicas passando por cima da efetiva justaposição das ideias representadas por “esquerda” e “direita”. O debate público, que só pode existir pela justaposição dessas duas cosmovisões, foi silenciado. Naquele momento, isso parecia prejudicar igualmente tanto a esquerda quanto a direita. Não obstante, no decorrer do tempo, outro fenômeno se sobrepôs a essa supressão do embate ideológico.

Golbery do Couto e Silva bracodelula2_42

No afã de não serem vistos como intransigentes, a alta cúpula do comando militar resolveu adotar aquilo que Golbery do Couto e Silva (foto ao lado) chamou de “Teoria da Panela de Pressão”. A ideia era mostrar que os militares estavam combatendo apenas a esquerda que queria se impor pela força, mas que aceitavam o debate democrático com os que estivessem dispostos a realiza-lo. Embora nem mesmo a sombra mais remota desse fato seja representada nos livros didáticos do Ministério da Educação, a verdade é que a ação do governo militar foi bem ambígua: ao mesmo tempo que perseguia os esquerdistas que queriam impor o socialismo à força, a exemplo de Carlos Marighella, favoreciam aos esquerdistas que queriam apenas divulgar pacificamente a ideias comuno-socialistas, a exemplo de Ênio Garcia, dono da maior editora comunista do Brasil, a “Civilização Brasileira”, a qual sobreviveu (segundo relato do próprio Ênio), durante os anos 60 e 70, apenas por conta das verbas que recebia do governo militar. Se de um lado os militares trocavam balas com os revolucionários, como foi o episódio da famosa Guerrilha do Araguaia, do outro facilitavam a divulgação de ideias de esquerda nos polos formadores de opinião. Um exemplo disso é o lauto fomento à estatal “Embrafilmes”, cuja produção evidencia o quão recheada de esquerdista estava.

O silêncio vira monólogo

“Hoje, o não-marxista sente-se marginalizado, uma espécie de leproso político, ideológico, cultural etc etc. Só um herói, ou um santo, ou um louco, ousaria confessar publicamente: ‘Meus senhores e minhas senhoras, eu não sou marxista, nunca fui marxista. E mais: considero os marxistas de minhas relações uns débeis mentais de babar na gravata’.” Nelson Rodrigues

Tendo esse cenário em mente, é possível afirmar que, embora a esquerda não pudesse pronunciar-se publicamente de forma plena, por conta da censura imposta pelo regime militar, em relação à presença na cultura brasileira, os ideais e agendas de esquerda estavam bem protegidos, uma vez que aqueles em quem eles encarnavam estavam relativamente bem acomodados nos espaços sociais vigentes durante o governo militar. É verdade que os livros didáticos com o selo do Ministério da Educação tentam passar aos alunos a ideia de que o regime militar estava empenhado em esmagar no berço toda manifestação do pensamento esquerdista. Mas há farta documentação e relatos que provam justamente a brandura, a tolerância e até mesmo o enaltecimento com os quais os luminares do pensamento esquerdista eram tratados, tal qual pode ser conferido em obras como “Ideais Traídos”, de Sylvio Frota, “A Verdadeira História de Médici”, do general Agnaldo Del Nero Augusto, “O Outro Lado do Poder”, de Hugo de Abreu, “Castello Branco — O caminho para a presidência”, de John Dulles, e “Diálogo com Cordeiro de Farias”, de Aspásia Camargo e Walder de Goes.

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Além de bem acomodados, os esquerdistas aboletados nas redações dos jornais seguiram suas carreiras e passaram a implementar uma política de ocupação de espaços. Em certa medida como revide à censura impostas pelos militares, estabeleceram eles próprios através de um certo “corporativismo ideológico”, uma outra censura que preconizava a tomada silenciosa de todos os assentos de redações, expulsando delas quem quer que ousasse se auto definir como “conservador”. Um exemplo claro dessa situação foi o que aconteceu com o jornalista e articulista Gustavo Corção (foto acima), o qual foi simplesmente expulso da imprensa por conta de seu caráter conservador.

É muito simples entender que o período militar foi péssimo para os ideais do “conservadorismo” e do “liberalismo econômico”. Os militares haviam prometido à população que derrubariam João Goulart e realizariam novas eleições em um prazo breve de alguns meses. Ficaram no poder por 25 anos. Assim, mesmo que a intervenção militar tivesse parecido em um primeiro momento como favorável aos ideais citados anteriormente, à medida que os anos passavam, o regime ia perdendo apoio até mesmo de quem tinha clamado pela intervenção. À essa altura, uma grande parcela da população — aquela não inteirada nos assuntos ou que se auto considera neutra — políticos já tinha desenvolvido completa ojeriza pelo regime. Assim, quem quer que se dissesse “conservador” era tido socialmente como atrelado à ditadura que apodrecia lentamente. Até que as ideias mesmas de “conservadorismo” e “direita” fossem finalmente vistas como responsáveis únicas pelo estado de coisas que se aplacava sobre o País.

Assim, se o ideal “conservador/liberal” fenecia aos olhos públicos pela mera associação com o regime cuja aceitação definhava dia após dia, a presença maciça de esquerdistas nas redações dos jornais, no sistema de ensino e demais polos formadores de opinião, não só ajudava no processo de deterioração daqueles ideais, como criava uma apologia subliminar às ideias de esquerda. Os docentes formavam turmas e turmas de alunos cuja totalidade do conhecimento do qual dispunham sobre “conservadorismo” e “liberalismo econômico” era aquelas imagens assustadoras que seus professores esquerdistas lhes haviam incutido durante cada um dos dias de todos os anos letivos. Uma vez adultos, plenamente convencidos que “conservadorismo” e “liberalismo” eram os outros nomes pelos quais se pode invocar Lúcifer, o processo se reiniciava para que as novas gerações se formassem em um ambiente geral ainda mais esquerdista do que a geração anterior.

Não bastasse essa guinada à esquerda que a cultura brasileira havia dado por conta dos militares, em uma espécie de tiro saindo pela culatra, à essa época, começava a se tornar extremamente popular no Brasil as ideias do pensador italiano Antonio Grasmci, as quais defendiam que havia outro método mais astuto (e, portanto, mais eficaz) do que a luta armada para conseguir alcançar os objetivos da esquerda. Esse método consistia em alterar completamente a mentalidade de um povo, até que a forma de pensar esquerdista se tornasse tão natural que esse povo chegaria ao ponto de clamar pelo socialismo sem nem mesmo se dar conta de que é isto que está fazendo. O gramscismo passou a ser a cereja do bolo que os militares bateram e assaram para a esquerda. O saldo final do período militar foi que o debate político havia sido silenciado, mas a aversão pelas ideias defendidas pela direita e entusiasmo por aquelas defendidas pela esquerda (até porque contavam com a aura dourada que banha tudo aquilo que é proibido e/ou perseguido) espalhavam-se como uma onda pelo horizonte da cultura brasileira, causando nela os efeitos de um tsunami.

Uma vez aniquilado o debate político, após a redemocratização, toda a vida política nacional passou a ser norteada exclusivamente pela atenção apenas às acusações de desvios de dinheiro público. O que mais uma vez favoreceu a esquerda, a qual jamais se enrubesceu em acusar o opositor exatamente daquilo que ela mesma está praticando. Durante a década de 90, o Partido dos Trabalhadores ocupava a oposição e clamava por moralidade e ética na política no momento mesmo em que cravavam no seio de Brasília os alicerces do que viria a se tornar o Mensalão. Ninguém conhece melhor o modus operandi do crime do que os próprios criminosos. E, assim, a grita petista pela moralidade — que nunca sonharam exercer — foi suficiente para alcançar o impeachment do presidente Fernando Collor (o qual, na época, não foi considerado golpe).

Lula e Fernando Henrique FHC-e-Lula2

Já em 1994, com a eleição de Fernando Henrique, foi mais um item para a lista de fatores que favoreceram a esquerda alcançar o monopólio do discurso. O PSDB chegou ao poder executando toda a agenda da esquerda “pós-queda do muro de Berlim”, a qual já havia se dado conta que o Estado é um péssimo gestor de recursos. Esse partido passou então a realizar algumas privatizações ao mesmo tempo que executava (muitas vezes até mesmo usando o caixa oriundo da venda das estatais) todas as outras agendas da esquerda (quem começou a abrir a torneira das verbas estatais que transformaram o MST de um grupo de desdentados em uma organização paramilitar foi o próprio FHC). Já o Partido dos Trabalhadores, mais afeito ao marxismo leninista apresentava-se como oposição às privatizações, sendo assim a “esquerda por excelência”, ao passo que sobrava para o PSDB (um partido com as ligações mais profundas possíveis com o esquerdismo) a função de encarnar aquilo que passaria ser chamado no Brasil de “direita”.

A bipolaridade política entre o PT e o PSDB configurou com perfeição aquilo que Stálin havia chamado décadas antes de “Estratégia das Tesouras” (resumo breve dessa estratégia, caso o leitor não tenha ouvido falar dela: dois partidos de esquerda devem alcançar a hegemonia política de um país. Ambos com o mesmo objetivo, mas com uma divergência de métodos. Um desses dois partidos deve ter uma pequena abertura para a livre iniciativa. Esse será chamado pelo outro de “direita”. Uma vez isso sendo feito, a “direita da esquerda” passa a ocupar o espaço da “direita”, a qual será, assim, expulsa do espectro político daquele país. Não foi exatamente isso que aconteceu no Brasil?).

E foi nesse cenário preparado com pelo menos 30 anos de antecedência que o Partido dos Trabalhadores alcançou seu auge, com a eleição de Luís Inácio, em 2002. Chegando ao poder, o “Barba” (alcunha da época em que era informante dos militares) passou a executar o estratagema para o qual foi incumbido pela esquerda mundial (sobretudo aquela com sede em Havana): o de salvar o movimento socialista da lata de lixo da História. Sob os aplausos de um povo que tinha sido domesticado durante décadas por professores e meios de comunicação que entoavam discursos esquerdistas ad nauseum, favorecido pela estabilidade econômica alcançada a duras plenas pelo Plano Real (o qual o Partido dos Trabalhadores foi contrário desde o início) e também favorecido por uma queda mundial do preço do dólar (o que foi visto pelos ignorantes em economia como sendo uma valorização da moeda brasileira), o Brahma (alcunha que recebeu, já na qualidade de Presidente da República, dos empresários que faziam as negociatas escusas que agora são investigadas pela operação Lava Jato da Polícia Federal) passou a mandar gordos montantes para ditaduras comunistas africanas, para Cuba, passou a irrigar com gordas verbas estatais (já que os cofres, as reservas e a economia de uma maneira geral estavam organizadas) tanto movimentos ditos sociais (MST, CUT, UNE, etc) quanto todo um aparato midiático montado para fazer apologia do projeto petista.

Tudo parecia estar perfeito para a esquerda brasileira, não fosse um pequeno detalhe. Uma falha no estratagema geral: a despeito de terem alcançado o monopólio da construção de discurso nos meios de comunicação tradicionais e demais polos formadores de opinião, conforme havia sido preconizado por Antonio Gramsci, o projeto de engenharia social que a esquerda estava executando mui habilmente não havia levado em consideração que um novo meio de comunicação estava surgindo: a internet.

Um pequeno adendo nas questões da cibercultura

Graças às chamadas redes sociais, pela primeira vez na História desde Gutemberg, o domínio dos meios de comunicação não mais garantiria o pleno domínio do discurso social. Não cabe no escopo deste artigo enveredar profundamente pelos campos da cibercultura, mas em linhas gerais a questão é a seguinte: até a popularização da Internet, a comunicação de massa era feita de um ponto central irradiando-se para pontos periféricos. Ou seja, estavam claramente definidas as funções de “emissor do discurso público” e “receptor do discurso público”. Entre os primeiros estavam as pessoas que tinham lugares nos meios de comunicação (jornais impressos, televisão, rádio, cinema etc — aquilo que a esquerda chama de “mídia”). Já a “segunda classe” desse sistema linear de comunicação era ocupada por todos que não tinham esse beneplácito, ou seja, todo o bojo dos meros mortais anônimos.

Gilles Deleuze 256

Durante a última década do século passado (os já um quanto distantes “anos 90”), a popularização da Internet (nessa época ainda restrita a pesquisadores, estudantes universitários, “nerds” e aficionados por tecnologia) começou a se quebrar esse paradigma de comunicação de massa unidirecional. Nessa época, os estudiosos da cibercultura — notadamente a dupla Guattari e Deleuze (foto acima), além do também francês Pierry Levy — notaram que o território cibernético se assemelha a um rizoma. Esse é um termo da botânica que designa um formato específico de raiz, no qual os pontos que a compõem estão interconectados. Isso significa dizer que, na comunicação com base na Internet, no que se refere ao discurso público, não estão mais separadas as condições de “receptor” e “emissor”. Cada receptor que passa a integrar a rede é, pelo menos potencialmente, também um emissor de discurso; dependendo exclusivamente de sua capacidade de despertar a atenção dos outros “nódulos” que compõem o rizoma.

Essa revolução no campo da comunicação de massa se aprofundou ainda mais na década seguinte (2001-2011), quando o mundo assistiu ao surgimento das chamadas redes sociais, concomitantemente com a popularização de dispositivos que permitiam o levar a Internet no bolso (os chamados gadgets) e da expansão da infraestrutura necessária para que funcionem (rede 3G). Passando para a próxima década, a que se inicia em 2011, temos a popularização do Facebook e do Twitter no Brasil. A essa altura, quem quer que estivesse munido de telefone celular tornou-se, pelo menos potencialmente, capaz de exercer o papel de formador de opinião. Essas evoluções tecnológicas acabaram por enterrar o mundo no qual os “gate keepers” tinham o monopólio da construção do discurso.

Nesse ambiente, pessoas com pensamentos semelhantes passaram a poder recorrer ao recurso tecnológico para encontrar seus pares, independentemente da distância física. Todos os estudiosos da cibercultura advertiram que o contexto que estava sendo traçado desde a década de 90 era favorável para circulação das informações que eram sonegadas pelo chamado “mainstream”. E foi exatamente isso que aconteceu: as redes sociais e o aparato comunicacional em torno da informática (agora já completamente integrado ao cotidiano da quase totalidade da população) favoreceram, em nosso país, a um fenômeno muito curioso: o quê, no Brasil, era mais suprimido, mais sonegado, mais omitido pelos meios de comunicação de massa tradicionais? A resposta: o verdadeiro debate político, aquele que contrapõe a cosmovisão de esquerda (pautada pela crença de que o Estado não só tem condições, como também o dever de agir para instaurar o paraíso-celeste-na-terra) e a direita (que se coloca na função de desconfiar desse imperativo-categórico pelo qual a esquerda pensa e age). Todo o suporte tecnológico estava favorecendo o debate sobre informações negligenciadas pelo discurso público dominante. Começaram a surgir grupos de debates no Facebook e diversos “vloggers” passaram a manter canais no Youtube nos quais apresentavam uma construção de pensamento totalmente antagônica em relação a mantida pelo sistema de ensino e pelos meios de comunicação de massa tradicionais.

O meio, a mensagem e o “véi”

Olavo de Carvalho 234

Em um cenário formatado através de tecnologias recém popularizadas, era de se pressupor que o destaque fosse para algum adolescente que as dominasse e as utilizasse como palco para a fama nacional. O que se passou foi o exato oposto disso. Nascido a 29 de abril de 1947, o já quase septuagenário jornalista Olavo de Carvalho (foto ao lado) tinha em seu currículo não só a autoria de diversos livros (destaque para “O Imbecil Coletivo”), como também passagens por meios de comunicação tais quais a revista “Bravo” e o maior jornal do país, a “Folha de São Paulo”. Sua relevância na qualidade de pensador já estava estabelecida, mas sua fama — em se tratando de um país cuja população foge da letra impressa como o diabo foge da cruz — era mediana, equivalente à de qualquer jornalista que assine artigos na chamada “grande mídia”. Foi só quando Olavo de Carvalho decidiu criar o programa “True Outspeak” que sua popularidade passou a crescer vertiginosamente. Dotado apenas de uma webcam amadora, de qualidade questionável, e da coragem para falar o que ninguém queria ouvir, Olavo passou a lançar na rede de vídeos Youtube, semanalmente, suas análises sobre a política nacional e internacional. A despeito da complexidade dos assuntos que abordava, e da profundidade com a qual o fazia, os programas eram caracterizados pelo uso de linguagem extremamente coloquial, sempre recheadas de tiradas humorísticas. O formato caiu no gosto do “povo”. A cada edição do “TOS”, sem recorrer à anúncios no intervalo da novela das 9, mas calcada apenas na propaganda boca-a-boca que propalava a lucidez ímpar o tom despachado do “véi”, o séquito do jornalista (os chamados “olavetes”) só cresceu até o dia em que ele decidiu descontinuar o programa.

Assim, Olavo funcionou como um “elemento catalizador” acelerou a reação que já se desenhava: a retomada do debate público sobre POLÍTICA. A forma direta na qual Olavo construía seu discurso chamou a atenção sobretudo de jovens, que a essa altura estavam cansados da impostação de voz e da afetação com a qual seus professores narravam a “repressão nos anos de chumbo”, o caráter nefasto dos Estados Unidos se negarem a realizar negócios com uma certa ditadura sanguinolenta que se aplacou sobre determinada ilha caribenha e as glórias míticas do esquerdismo enquanto cosmologia. Os livros e materiais que Olavo indicava entre um impropério e outro passaram a ser lidos por um número considerável de internautas (fato que, por si só, pode constar como argumento para a uma possível futura canonização de Olavo, afinal fazer o brasileiro ler é um milagre mais difícil do que abrir as águas do Mar Vermelho).

A jornada da intelectualidade havia sido transformada pelo mestre em uma aventura divertida e empolgante. Com isso, cada um dos que dela participavam começaram a produzir páginas, blogs e perfis em redes sociais para compartilhar as próprias descobertas e interagir com seus pares dispersos na imensidão do território brasileiro. Cabe aqui citar, além do blog “Meu professor de História mentiu pra mim”, entre tantos outros que haverão de me perdoar a descortesia de não listá-los para que o presente texto não se estenda em demasiado, páginas do Facebook que também foram pioneiras, como “Bolsonaro Zueiro” e “Este é um idiota útil”, o blog “Ceticismo Político”, assinado por Luciano Ayan e o Reaçonaria, do qual um dos autores, Flávio Morgenstern, posteriormente assinaria contrato com a Editora Record e lançaria a obra “Por Trás da Máscara”, na qual expõe as entranhas do movimento Black Bloc e das manifestações de junho de 2013. O fato é que estava sendo constituída, no “underground” da cultura brasileira, à revelia dos “donos do discurso público”, uma massa de pessoas cuja formação intelectual permitia enxergar claramente o mar de mentiras e embustes no qual elas mesmas haviam sido criadas.

Recapitulando: conforme foi explicado, usando as estratégias traçadas por Stálin e por Gramsci, a esquerda brasileira substituiu o debate político por mera disputa de cargos e, quando muito, acusações de corrupção de uma parte à outra, ficando de fora do debate público pautas como “o Estado deve ter poder de passar por cima dos pais na educação dos filhos?”, “o Estado deve ter poder de suprimir o direito que cada cidadão tem de se defender?”, “o Estado deve ter poder para se imiscuir nas negociações econômicas entre seres adultos, livres e vacinados?”; em suma, uma vez suprimida a discussão de qual deve ser o tamanho do Estado, parte-se do pressuposto que o Estado é uma entidade onipotente e, assim, está configurada uma ditadura moderna, que não precisa de tanques nas ruas para garantir o poder, mas apenas controlar o que pode e o que não pode ser pensado (quem leu vai recordar da obra 1984, o escritor inglês George Orwell). Esse debate, porém, foi resgatado graças às redes sociais e com a luxuosa ajuda do jornalista, escritor, ensaísta, filósofo, Olavo de Carvalho, que atuou como catalizador de um fenômeno cultural que um dia espero que seja investigado com profundidade por sociólogos e demais estudiosos das Ciências Humanas.

A esquerda perde o monopólio da construção de narrativas. O choro é livre.

“Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo…”. Abraham Lincoln

Chegamos finalmente a 2013. A propaganda petista na TV anunciava (ameaçava?) um tal “grande salto” através do qual a elite do Partido dos Trabalhadores pretendia conduzir (empurrar?) o Brasil a uma nova realidade, sem deixar muito claro o que exatamente seria essa mudança e sem explicar de que forma ela se daria. Mas a popularidade da “presidenta” Dilma ainda era alta e o Partido se organizava nos bastidores para promover um “plebiscito constituinte” que lhes permitiria rasgar a Carta Magna e escrever outra ao seu bel prazer. Hordas de militantes (esquerdistas) foram convocadas para demonstrar publicamente a hegemonia que a esquerda havia alcançado no pensamento do povo brasileiro. As ruas foram tomadas pelo povo, mas, para surpresa da esquerda, entre os cartazes com desenhos da foice cruzada com o martelo e entre as camisas vermelhas, imiscuíram-se pessoas que portavam cartazes que diziam “menos Marx mais Mises” e se vestiam de verde-e-amarelo. A esquerda não tinha se dado conta, acreditava estar no domínio total da situação, mas um trabalho havia sito feito, à revelia dos donos do poder, o povo havia sido despertado do sono induzido pelo canto de sereia que era o projeto gramsciano de engenharia social. Um belo dia a esquerda se deu conta de que não estava mais sozinha. O debate político nacional finalmente contava com um contraponto. Reinavam as trevas, mas no meio delas o Logos disse “que haja o dissenso”.

Após entender que não era mais a dona do quarteirão, a esquerda também foi obrigada a aceitar que seu discurso estava naufragando no mundo virtual. A massa que foi induzida pelos bate-papos em redes sociais, agora estava munida de algumas coisinhas que incomodam a esquerda profundamente: dados, fatos e argumentos. Os perfis em redes sociais, tais quais a página oficial do Partido dos Trabalhados, a da deputada Maria do Rosário, do deputado Jean Wyllys, de arremedos de intelectuais tais quais Gregório Duvivier, de subcelebridades que endossam a ditadura petista em troca de alguns tostões que lhes mantenham o padrão de vida que suas carreiras não mais são capazes de manter (tais quais Tico Santa Cruz e Daniela Mercury) passaram a receber objeções e críticas.

O esquerdismo sobrevive da ocultação de evidências

“A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram.” João 1:5

No embate político entre esquerda e direita, uma questão se expõe evidente: a esquerda nunca teve a realidade factual a seu lado, tendo ela sempre precisado recorrer a toda sorte de embustes para provar o contrário do que estava evidente à luz clara da razão. A cosmovisão da esquerda é como a feminilidade de um travesti. Um travesti precisa se valer de substâncias que bloquem a produção dos hormônios masculinos, se a injeção dessas substâncias for descontinuada, naturalmente as características sexuais masculinas voltam a aparecer. Assim também é a cosmovisão da esquerda. Para manter a população favorável à agenda da esquerda, a elite política esquerdista precisa bloquear o acesso à informação, aos dados factuais. Não é à toa que em todos os países nos quais a esquerda governa, os meios de comunicação são controlados pelo governo para que as pessoas possas entrar em contato apenas com o que interessa ao regime. Repetindo: não basta apenas ter a supremacia da produção de narrativas. É preciso controlá-la completamente, estabelecer uma hegemonia absoluta, não permitir nenhum acesso a nenhum contraponto, alcançar a completa supressão do dissenso.

A sabedoria popular apregoa que a mentira tem perna curta. A mentira e a verdade são como as trevas e a luz. Não existe absolutamente nada que as trevas possam fazer para prejudicar a luz, mas, ao contrário, a mais tênue réstia de luz é suficiente para neutralizar as trevas. Esse é o motivo pelo qual a esquerda não aceita o debate. O debate pressupõe a justaposição e consequente comparação entre versões antagônicas dos fatos. Se a esquerda permitir aceitar o debate, estará assinando sua sentença de morte. Se a esquerda permitir o acesso ao discurso contrário, se for dada oportunidade de que as pessoas conheçam o que defende a esquerda e o que defende a direita, se ambos os discursos forem comparados à luz da razão, quem os comparar não vai demorar a se dar conta de todos as falácias, maracutaias, malabarismos semânticos e demais tipos de embustes nos quais a esquerda se sustenta.

Karl Marx 23

É assim desde sempre. Karl Marx tinha a tese de que o livre mercado aumentaria a desigualdade econômica, segundo ele os ricos enriqueceriam e os pobres empobreceriam até o patamar da miséria, na qual seriam mantidos pelos detentores dos meios de produção. No afã de comprovar sua tese, recorreu aos dados dos relatórios anuais do Parlamento da Inglaterra, os famosos Blue Books. Ocorre que após estudar esses relatórios, constatou que, ao contrário do que ele estava dizendo, a condição social da classe operária tinha melhorado muito mais do que a dos detentores dos meios de produção, o que na verdade se configurava como uma redução da desigualdade. Como os dados que ele tinha em mãos não corroboravam com a tese o que fez o herói da esquerda? Ele fez o que a esquerda faz desde então: ele falsificou dados. Inventou dados da cabeça dele, em conformidade com a tese que queria provar e os publicou no compêndio de lorotas que leva o nome de “O Capital” (vide “Marx as Politician”, de David, F. Felix).

Karl Marx simplesmente esperou que ninguém conferisse os números, que a palavra dele fosse tomada como verdade apriorística e o engodo sobreviveria. Mais exemplos podem ser citados. Quem nunca escutou falar da sanguinolência do regime militar brasileiro? Das atrocidades cometidas por milhares, talvez milhões, de jovens estudantes inocentes que lutavam por mais igualdade? Pois bem, com o fortalecimento do debate político causado pelas redes sociais, toda essa lorota que os professores esquerdistas repetem diariamente em milhões de salas de aula Brasil afora vai por água abaixo. Em 25 anos de regime militar, morreram, segundo dados levantados pela Comissão da Verdade (percebam que estou usando propositalmente a fonte que tem todo interesse que esses números sejam o maior possível. A esquerda solta fogos e dá pulinhos de alegria cada vez que uma morte e/ou desaparecimento é acrescida a essa soma) 434 pessoas (incluídos aí os 210 desaparecidos). Vamos comparar esses números com os da ditadura cubana, que era o modelo o qual os terroristas brasileiros queriam impor à força? Somente nos dois primeiros anos da revolução foram 90.000 mortes. É um número 207 vezes maior, sendo que a população cubana na época era ¼ da brasileira. Fazendo uma conta rápida, chegamos à conclusão que a esquerda alega que pedir a volta do regime militar no Brasil é incorrer em “discurso de ódio”, no momento mesmo em que endossa a ditadura militar cubana que foi pelo menos 800 vezes mais letal do que a “ditadura” brasileira. Há ainda mais duas questões a serem consideradas a respeito dessa comparação: 01) os militares brasileiros alvejaram majoritariamente terroristas que morreram com armas nas mãos, trocando tiros com soldados. Pode haver um ou outro caso de um inocente que tenha morrido sem culpa no cartório, mas são as exceções. Em Cuba a situação foi exatamente a contrária: a quase totalidade dos mostos era da população civil inocente, os poucos não-civis que foram mortos foram os ex-companheiros mortos em disputas por poder internas da revolução. Aliás, é bom frisar que se pegarmos apenas os cubanos que morreram em disputas internas, esse número já ultrapassa de longe os 434 mortos do regime militar brasileiro, o que prova que ninguém mata mais comunista do que os próprios comunistas. 02) entre esses 90.000 cubanos mortos estão apenas aqueles que morreram para que fosse instalado o regime (aquilo que os comunistas chamam de “expurgos”) para contabilizar a real letalidade da ditadura cubana precisaríamos colocar na conta os que morreram (e ainda morrem) por causa da inabilidade da economia planificada em produzir alimentos, agasalhos, abrigo e remédio para a população e os mortos que morreram tentando escapar do paraíso-terrestre igualitário, tendo sido afogados ou comidos por tubarões no caminho para Miami.

Os dados relativos à fraude de Karl Marx e os que estabelecem uma comparação entre a ditadura militar brasileira e a ditadura comunista cubana não serão encontrados em nenhum livro da bibliografia do méqui (maneira jocosa como a sigla do Ministério da Educação, MEC, era grafada no blog “Meu professor de História mentiu pra mim”), nem aparecerão em nenhuma matéria da mídia mainstream (aboletada até a tampa de esquerdistas), mas quem quer que frequente um grupo sério de debate político no Facebook sabe que o caso de Marx foi abordado no livro “Marx as politician”, de David, F. Felix (quem não tiver acesso ao livro e se contentar com um mero artigo, sugiro o “8 Facts Communists Hide About Marx”) e os números relativos à revolução cubana estão presentes na obra “Livro Negro da Revolução Cubana”, do economista Armando M. Lago, presidente da Câmara Ibero-Americana de Comércio e consultor do Stanford Research Institute, que fez um profundo recenseamento das vítimas da ditadura castrista durante décadas e publicou o resultado de seus estudos em 2004 (outras fontes confiáveis o blog da jornalista Graça Salgueiro, que há anos também se dedica a um trabalho semelhante [notalatina.blogspot.com] e o sítio “Net for Cuba” [www.netforcuba.org ]. Gostaria de citar também o artigo “Chile X Cuba – Comparando as Ditaduras”, publicado no blog do jornalista Roberto Barricelli, o qual compara números da ditadura de Fidel Castro com a ditadura de Pinochet).

Entra em cena o “hate speach”

“Toda a propaganda de guerra, toda a gritaria, as mentiras e o ódio, vêm invariavelmente das pessoas que não estão lutando.” George Orwell

Assustada com a perda da hegemonia da construção de narrativas, sentindo-se acuada com as objeções que passaram a questionar seu discurso, e sabendo que se entrasse em um embate com os opositores ela perderia, a esquerda hoje trabalha para neutralizar o que ela chama de “recrudescimento do conservadorismo”, mas que na verdade nada mais é do que o fenômeno do povo se libertando dos grilhões aos quais a esquerda lhe manteve sob o jugo durante décadas. E qual a melhor maneira de realizar essa neutralização? Simples: é preciso fazer aqueles que ainda estão sob efeito do transe que antipatizem os que já se libertaram. Assim, a esquerda passou a associar a pecha de “discurso de ódio” a qualquer crítica que se realize contra ela. Esse é o motivo pelo qual essa expressão “discurso de ódio” entrou em moda de repente na mídia mainstream e na fala dos luminares da esquerda. Para onde quer que se olhe, lá estará um esquerdista se dizendo “vítima de discurso de ódio” ou, quando não é possível vitimizar a si mesmo, afirmando que “o recrudescimento do conservadorismo burguês frente às conquistas do partido dos trabalhadores para os mais necessitados está despertando nessa mesma burguesia o discurso de ódio em relação aos agentes desse avanço popular”.

Tico Santa Cruz ticosantacruz

Não raro, a auto vitimização vem da parte de pessoas para as quais fica extremamente feio a autoproclamação de discurso de ódio. É o caso, por exemplo, de Tico Santa Cruz (foto ao lado), vocalista de uma banda de roque adolescente, que passou a aproveitar a popularidade que tem entre o público pré-púbere para fazer apologia das ideias de esquerda, do regime petista e — por que não? — aproveitar para embolsar uns trocados oriundos da Lei Rouanet. Há anos o senhor T.S.C. mantém um perfil no Facebook no qual ele expõe todo o arcabouço intelectual que ele não tem em colocações as mais esdrúxulas e descabidas possíveis sobre a situação e sobre acontecimentos políticos do cotidiano do país. Quando entre os comentários passaram a surgir questionamentos e refutações à fala dele, passou a fazer postagens em texto e em vídeo se dizendo vítima desse tal “discurso de ódio oriundo da extrema direita enraivecida em ter que sentar ao lado de pobre no avião e bla-bla-blá”. Ocorre que o moço em questão possui em seu currículo um episódio no qual, durante um show, por causa de algum problema técnico no equipamento de som, ele passa a ameaçar de morte o técnico de som responsável pelo equipamento, dizendo que daria uma ordem para que a multidão o linchasse. Em outro episódio, ele discute com um fã (ele em cima, o fã embaixo do palco) e passa a dirigir impropérios e cusparadas ao desafeto, ignorando a covardia que é xingar alguém na situação na qual ele é uma figura pública relativamente conhecida, está em cima de um palco, com um microfone na mão e a outra parte é um mero alguém na multidão. Ambos os episódios foram registrados em vídeo por terceiros e podem ser facilmente encontrados no Youtube, mas a facilidade com que a hipocrisia do cidadão pode ser desmontada não é maior do que a pachorra dele para se vitimizar no afã de colher louros políticos.

Dilma Rousseff como guerrilheira 707_dilma_01 (1)

Outro episódio tragicômico recente foi quando a página do MST fez postagens dizendo que o tal Movimento dos Trabalhadores-que-nunca-trabalharam Sem Terra estava sendo vítima de discurso de ódio. Sim! O mesmo MST que ainda esse ano invadiu um laboratório de pesquisas genéticas e destruiu o fruto de longos 15 anos de uma equipe de pesquisadores, o mesmo MST que tem por praxe invadir fazendas, destruir benfeitorias, ameaçar cidadãos pacíficos com facões e enxadas. Esses anjinhos indefesos sentem-se no direito de embarcar no oba-oba do “discurso de ódio” e posar de vítimas, virando as costas para um vasto currículo público e notório de uma sequência infinita de crimes os mais atrozes. Mas nenhum episódio foi mais sui generis do que o programa televisivo do governo no qual a presidente Dilma alega que “o Brasil está assistindo um clima de crescimento de preconceitos e intolerâncias”, aproveitando para expressar “repúdio a toda forma de ódio contra quem quer ou o que quer que seja” e lembrando que “uma sociedade que se pretende civilizada deve aprender a conviver com as diferenças e tolerar as divergências culturais e de pensamento”. Sim! A mesma Dilma que na década de 60 integrou grupos terroristas cujas ações vitimaram centenas de inocentes.

Conclusão

Após décadas de hegemonia da construção do discurso, a esquerda perdeu essa condição por não ter levado em consideração a internet. Agora, diante do novo cenário no qual não mais reina sozinha, a esquerda aponta para as vozes dissonantes e acusa “discurso de ódio!” com o objetivo de tentar desqualificar as críticas com as quais passou anos sem precisar lidar. Não! O Brasil não está vivendo nenhum surto de discurso de ódio, mas o que acontece é exatamente o contrário. Há em curso no Brasil um surto de lucidez, uma força motriz reestabelecendo a situação normal de qualquer democracia: o debate — sem o qual não é possível comparar ideias. No momento em que vivemos, é importante repetir sempre: é uma obrigação moral que se aplaca sobre qualquer pessoa que se considere minimamente instruída que, diante de uma alegação de “discurso de ódio” seja capaz de se desviar das reações condicionadas às quais tentam induzir as “palavras-gatilho” e busque identificar quanto de “ódio” realmente há na mensagem que está sendo acusada e em que medida trata-se apenas de uma falsa imputação cujo objetivo é o estelionato intelectual que visa retornar à condição de não debate, retornar à mesma situação de “pensamento” monolítico, do qual saímos à duras penas.

O escopo da conversa do dia 23 de outubro contempla a análise juntos algumas mensagens que foram acusadas de serem manifestações de discurso de ódio, para treinarmos nossa capacidade de julgamento nessas situações.

Pérsio Menezes, jornalista, é editor do blog “Meu professor de História mentiu pra mim”. O artigo foi transcrito do blog.

A sociedade não precisa de dirigentes por Lew Rockwell, sábado, 17 de outubro de 2015

Desde que existem, os governos sempre se ocuparam basicamente de uma atividade: encontrar novas maneiras de intervir nas relações humanas, inventando novas formas de gerenciar a sociedade e suas interações sociais e econômicas. Quando não estão fazendo isso, as legislaturas se ocupam de tentar reformar os sistemas que eles próprios criaram no passado.

Apenas pense na saúde pública, na educação pública, em toda a fraude criada pela Previdência Social, na injustiça da tributação, na infindável incapacidade de gerenciar a moeda e as finanças públicas, além de todas as outras áreas da sociedade e da economia em que o governo se arvora a responsabilidade de gerir, e responda: por que tais áreas são uma bagunça?

Políticas públicas devem ser abolidas

Alguns liberais creem que a liberdade que desejam pode ser imposta da mesma forma que os sistemas socialistas antigos eram impostos sobre as sociedades. A ideia é a de que caso sejam eleitos um Congresso e um presidente iniciados na teoria libertária, eles poderiam corrigir tudo o que está errado em um piscar de olhos. Assim, seria necessário apenas eleger políticos versados na Escola de Chicago e um presidente treinado nos méritos dos incentivos de mercado, e tudo começaria a se resolver.

Porém, infelizmente, não é simples assim. Mais ainda: se de fato fossemos capazes de fazer isso, estaríamos apenas substituindo uma forma de planejamento central por outra. A genuína liberdade não advém de uma dada forma de gerenciamento governamental. A genuína liberdade significa ausência de gerenciamento governamental.

Todas as reformas em todas as áreas da política, da economia e da sociedade deveriam se dar em apenas uma direção: mais liberdade para os indivíduos e menos poder para o governo. Indivíduos devem exercer seu direito de usufruir a maior liberdade possível, e o governo, o dever de exercer o menor poder possível.

Sim, essa é a posição que qualifica um indivíduo como libertário. Porém, essa palavra não possui o poder explanatório que já teve em outros tempos. Há uma tendência de ver o libertarianismo como uma espécie de política pública, ou apenas mais um emaranhado de propostas políticas, que enfatiza a importância da livre iniciativa e das liberdades pessoais em oposição à arregimentação burocrática.

Essa perspectiva, porém, é totalmente errada, e possui perigosas consequências. Imagine se Moisés houvesse procurado conselhos de burocratas governamentais e especialistas em políticas públicas quando estava em busca de meios para libertar o povo judeu da escravidão egípcia. Eles teriam lhe dito que marchar até o Faraó para pedir a ele que “liberte o meu povo” seria uma atitude altamente imprudente e inútil. A mídia não iria gostar e ele estaria exigindo muita coisa muito rapidamente. O que os israelitas deveriam fazer seria utilizar o sistema judicial. Fora isso, o governo deveria conceder-lhes incentivos de mercado, mais escolhas por meio de vouchers e subsídios, e uma maior participação na estrutura de regulamentações impostas pelo Faraó. Ademais, senhor Moisés, criticar o sistema é antipatriótico e extremista.

Em vez disso, Moisés adotou uma posição de princípios, e exigiu que seu povo fosse imediatamente libertado da opressão de todos os controles políticos — uma completa separação entre governo e a vida dos israelitas. Esse é o meu tipo de libertarianismo. O libertarianismo não é uma agenda política detalhando um melhor método de governança. Antes, trata-se da moderna incorporação de uma visão radical e singular que está acima de todas as ideologias políticas existentes.

O libertarianismo não propõe nenhum plano para reorganizar o governo; ele requer que planos desse tipo sejam abandonados. Ele não propõe que incentivos de mercado sejam empregados na formulação de políticas públicas; ele deseja uma sociedade na qual não haja políticas públicas no sentido em que tal termo é normalmente conhecido.

O verdadeiro liberalismo

Se essa ideia soa radical e até mesmo maluca hoje, ela era comum entre os pensadores dos séculos XVII e XVIII, dentre eles John Locke e Thomas Jefferson. A marca distintiva dessa teoria política é a de que a liberdade é um direito natural. Ela antecede a política e antecede o estado. O direito natural à liberdade não precisa ser concedido ou ganhado ou outorgado. Ele deve apenas ser reconhecido como um fato. É algo que existe naturalmente na ausência de um esforço sistemático para aboli-lo. O papel do governo não é nem o de conceder direitos, nem o de oferecer a eles algum tipo de permissão para existir, mas simplesmente se restringir de violá-los.

A tradição liberal do século XVIII em diante percebeu que era o governo a entidade que praticava os mais sistemáticos esforços para roubar as pessoas de seus direitos naturais — o direito à vida, à liberdade e à propriedade —, e é por isso que um estado deve existir apenas se tiver a expressa permissão de todos os membros de uma sociedade, estando limitado a realizar apenas aquelas tarefas que toda a população julgar essenciais. Era com relação a essa agenda que todo o movimento liberal estava comprometido.

Os liberais não estavam lutando para que certos direitos fossem dados ou impostos sobre as pessoas. Não se tratava de uma forma positiva de liberdade, a ser imposta sobre a sociedade. Tratava-se de algo não positivo, mas sim negativo, no sentido de que delineava aquilo que não deveria ser feito. Os liberais queriam acabar com a opressão, arrebentar os grilhões, livrar-se do jugo do estado, libertar as pessoas. O objetivo era acabar com o domínio do estado e iniciar uma governança feita pelas pessoas, as quais eram as únicas que deveriam controlar suas associações privadas e voluntárias. A sociedade não precisa de qualquer tipo de gerenciamento social. A sociedade se mantém coesa não pelo estado, mas sim pelas ações diárias e cooperativas de seus membros.

A nação não precisa de um ditador, nem de um presidente, e nem de atos de boa vontade para impor as bênçãos da liberdade. Essas bênçãos advêm da própria liberdade em si, a qual, como escreveu Benjamin Tucker, é a mãe da ordem, e não sua filha.

Um bom exemplo do princípio da auto-organização — isto é, a capacidade das pessoas de se organizarem voluntariamente por meio do comércio e do respeito mútuo — pode ser visto nas modernas organizações tecnológicas. A internet é amplamente uma rede que se organiza sozinha, sem nenhum gerenciamento. As comunidades comerciais que se formaram na rede [Amazon, eBay, Mercado Livre etc.] já são maiores e mais vastas do que muitas nações já o foram. São comunidades formadas por indivíduos que se organizam voluntariamente e autonomamente, interagindo sob regras, fiscalizações e imposições amplamente privados. As inovações disponíveis em nossa era são tão espantosas que vivemos em uma época considerada revolucionária. E é verdade.

A vida moderna se tornou tão imbuída dessas pequenas esferas de administração — esferas de administração nascidas da liberdade —, que ela se assemelha em muitos aspectos a comunidades sociais anárquicas. Todas as grandes instituições de nossa época — desde grandes e inovadoras empresas tecnológicas, passando por redes varejistas até enormes organizações benevolentes internacionais — são organizadas na base do voluntarismo e do comércio. Elas não foram criadas pelo estado e não são gerenciadas em suas operações diárias pelo estado.

Um louvor à anarquia ordenada

Isso nos transmite uma lição e um modelo a ser seguido. Por que não permitir que esse bem sucedido modelo de liberdade e ordem seja a base de toda a sociedade? Por que não expandir tudo aquilo que funciona e eliminar tudo aquilo que não funciona? Tudo o que precisaria ser feito seria remover o governo do cenário.

Nem é preciso ressaltar que tal ideia não é amplamente aceita. Qualquer indivíduo que habita os quadros da burocracia estatal, de qualquer país, acredita que é o governo quem, de alguma forma, mantém a sociedade coesa, quem a faz funcionar, quem inspira grandeza, quem torna a sociedade justa e pacífica, e quem permite a liberdade e a prosperidade decretando e implantando toda uma cornucópia de leis e políticas.

Tal pensamento advém diretamente do antigo mundo dos faraós e imperadores romanos, em que os direitos de uma pessoa eram definidos e ditados pelo estado, o qual era visto como a expressão orgânica das vontades da comunidade, incorporadas na sua classe de líderes. Não havia fronteiras claras entre indivíduos e a sociedade, o estado e a religião. Todos eram vistos como parte da mesma unidade orgânica; daquela mesma coisa amorfa chamada ordem civil.

E foi justamente essa visão que passou a ser rejeitada pelo ideário cristão que afirmava que o estado não era o senhor da alma do indivíduo — a qual possui valor infinito —, e não podia se pretender o dono da consciência de todos. Mil anos depois, começamos a ver esse princípio sendo expandido. O estado já não era mais visto como o senhor nem da propriedade e nem da vida dos indivíduos. Quinhentos anos mais tarde, vimos o nascimento da ciência econômica e a descoberta dos princípios do comércio — através da obra dos escolásticos espanhóis e portugueses —, além da miraculosa constatação de que as leis econômicas funcionam independentemente do governo.

Tão logo a cultura ideológica começou a absorver a lição do quão desnecessário era o estado para o funcionamento da sociedade — uma lição que claramente, e atualmente mais do que nunca, deve ser reaprendida a cada geração —, a revolução liberal não mais podia ser contida. Déspotas caíram, o livre comércio reinou e as sociedades cresceram e se tornaram mais ricas, pacíficas e livres.

É natural que as pessoas que trabalham no governo e para o governo imaginem que, sem seus esforços, haveria a total calamidade. Porém, essa atitude é onipresente na política atual. Praticamente todos os lados do debate político querem utilizar o governo para impor sua visão de como a sociedade deve funcionar.

Governos não podem ser refreados

A pergunta é constante: qual emenda constitucional eu defenderia para pôr em prática a agenda misesiana? Você defenderia uma lei que proibisse impostos de serem aumentados acima de um certo nível? Uma lei impondo o livre comércio? Uma lei garantindo a liberdade de contratos?

No entanto, a resposta seria uma outra pergunta: por que deveríamos crer que novas leis e emendas funcionariam? O problema com leis e emendas é que elas pressupõem, paradoxalmente, um governo grande e poderoso o suficiente para implantá-las e fiscalizá-las. Mais ainda: um governo que está mais interessado no bem dos indivíduos do que em seu próprio bem. Afinal, leis e emendas nada mais são do que um mandato para o governo intervir, e não uma restrição sobre sua capacidade de intervir. Por que acreditar que “desta vez vai funcionar para o bem”?

Não necessitamos que o governo faça mais coisas, mas sim menos, cada vez menos, até o ponto em que a genuína liberdade possa triunfar. A única coisa positiva que um governo pode fazer é definhar permanentemente até finalmente deixar que a sociedade prospere, cresça e se desenvolva por conta própria.

Ou seja, um governo não deve e nem pode impor a liberdade; ao contrário, ele deve apenas permitir que a liberdade continue existindo, cresça e se torne cada vez mais robusta perante todas as tentativas de transgressão e usurpação despóticas. Tal ideia, prevalecente no passado, encontra-se hoje totalmente perdida, e, como resultado, todos estão completamente confusos quanto ao papel do estado, o qual passou a ser visto por muitos como possuidor do toque de Midas, a única entidade capaz de impor e garantir a liberdade e o bem-estar de todos.

Esquecida, portanto, ficou a ideia de que a liberdade não deve ser imposta, mas sim apenas ter sua ocorrência permitida, sendo desenvolvida naturalmente desde o âmago da sociedade.

O fato é que, hoje, as pessoas nutrem um profundo temor quanto às consequências de apenas deixar as coisas correrem por si sós — laissez faire, na antiga frase francesa. A esquerda diz que, sob a genuína liberdade, as crianças, os idosos e os pobres sofreriam abusos, negligências, discriminação e privações. Já a direita diz que as pessoas cairiam no abismo da imoralidade, permitindo que movimentos revolucionários dominassem a sociedade. Economistas dizem que o colapso financeiro seria inevitável (mas não explicam por que ele de fato foi inevitável sob a tutela do estado, como está ocorrendo atualmente); ambientalistas afirmam que haveria uma nova era de insuportáveis mudanças climáticas, ao passo que especialistas em políticas públicas de todos os tipos evocam falhas de mercado de todos os tipos, tamanhos e formas.

Sim, várias pessoas continuam utilizando a retórica da liberdade. Políticos e legisladores aplaudem o termo e juram fidelidade à ideia. Porém, quantos hoje de fato acreditam nesse essencial postulado da antiga revolução liberal, de que a sociedade pode se gerenciar a si própria, sem um planejamento central, com seus éditos e regulações? Muito poucos. Em vez da liberdade, as pessoas acreditam em burocracia, bancos centrais, sanções, guerras, regulamentações, ditames, limitações, ordens, contenção de crise, “medidas macroprudenciais” e, principalmente, no financiamento de tudo isso por meio de impostos, endividamento e criação de dinheiro.

O governo sempre cresce

Ludwig von Mises já havia observado:

Há uma tendência inerente a todo poder governamental em não reconhecer empecilhos às suas operações e em ampliar a esfera de seu domínio o máximo possível. Controlar tudo, não deixar espaço para que nada aconteça espontaneamente fora do âmbito de interferência das autoridades — essa é a meta perseguida incansavelmente por todos os governantes.

O problema que ele identificou era como limitar o estado uma vez que ele começasse a se envolver com algo. Assim que você permite que o estado comece a gerenciar um aspecto da economia e da sociedade, você cria as condições que irão, no fim, fazer com que ele controle todo aquele setor. Dado que a tendência do governo é se expandir, é melhor nunca permitir que ele adquira uma participação majoritária na vida econômica e cultural da sociedade.

Uma objeção a essa tese é a de que medidas que impõem uma forma de liberdade pelo menos nos levam à direção correta. É verdade que mesmo um sistema parcialmente livre é melhor do que um completamente socialista. Entretanto, o problema é que vitórias parciais sempre são instáveis. Elas facilmente, e quase sempre, retrocedem ao completo estatismo, como comprovam todos os setores da economia que foram ‘privatizados’ e passaram a ser controlados por agências reguladoras.

A liberdade não pode ser imposta

A esquerda acredita que, ao restringir a liberdade de associação nos mercados de trabalho, ela está protegendo a liberdade dos marginalizados, ajudando-os a obter empregos. Porém, essa suposta liberdade é adquirida à custa de terceiros. O empregador não mais possui o direito de contratar e demitir. Como resultado, a liberdade de contrato passa a valer para apenas uma das partes envolvidas. O empregado é livre para aceitar as propostas do empregador e de sair do emprego quando quiser, mas o empregador não é livre para contratar de acordo com seus próprios termos e para demitir quando achar necessário.

O mesmo se aplica para uma ampla gama de atividades essenciais às nossas vidas. Na educação, dizem que o estado deve impor o ensino compulsório a todas as crianças, caso contrário seus pais serão negligentes. Apenas o estado pode garantir que nenhuma criança seja deixada para trás. A única divergência passa a ser os meios empregados: vamos utilizar sindicatos e burocracias defendidas pela esquerda, ou os incentivos de mercado e o sistema de vouchers defendidos pela direita. Não quero aqui entrar em um debate sobre qual meio é o melhor, mas apenas chamar a atenção para a realidade de que ambas as medidas são formas de planejamento que solapam a liberdade das famílias de gerenciar suas próprias vidas.

O catastrófico erro da esquerda foi o de subestimar o poder do livre mercado em gerar prosperidade para as massas. Porém, tão perigoso quanto é o erro que a direita comete ao imaginar que o mercado pode ser utilizado a seu bel-prazer para fazer gerenciamentos sociais e morais, como se o governo pudesse manusear uma série de alavancas para tal fim. Se um lado quer criar burocracias maiores e melhores, o outro prefere terceirizar serviços governamentais ou colocar empresas privadas na folha de pagamento do governo, tentando domar o mercado e canalizar seu poder para o ‘bem comum’.

A primeira visão nega o poder da liberdade, mas a segunda é tão perigosa quanto, pois vê a liberdade puramente em termos instrumentais, como se ela fosse algo a ser orientada em prol da visão que um seleto grupo de pessoas considera ser do interesse nacional ou da moralidade geral.

Tal formulação implica a concessão de que cabe ao estado — seus governantes e intelectuais apoiadores — decidir como, quando e onde a liberdade deve ser permitida. Mais ainda: implica que o propósito da liberdade, da propriedade privada e do próprio mercado é permitir um melhor gerenciamento da sociedade, ou seja, permitir que o regime opere com mais eficiência.

Murray Rothbard já havia observado, ainda na década de 1950, que os economistas, mesmo aqueles pró-mercado, haviam se tornado “peritos em organizar eficientemente o estado”. Eles haviam se especializado em ensinar os planejadores centrais a empregar incentivos de mercado para fazer com que o governo funcionasse melhor. Essa visão hoje já se disseminou e passou a ser dominante entre todos os economistas, principalmente aqueles que seguem a Escola de Chicago.

É essa mesma visão que aparece em algumas propostas liberais, como a “privatização da Previdência Social” (que se resume à aquisição compulsória de ações por meio de corretoras favoritas do governo), vouchers escolares, mercados de crédito de carbono, e outras medidas “mercadológicas”. Eles não cortam os grilhões e nem acabam com o jugo; eles simplesmente forjam o aço com materiais diferentes e afrouxam um pouco o jugo para torná-lo mais confortável.

(Em particular, medidas como “privatização” da Previdência, vouchers escolares e vouchers para a saúde poderiam acabar tornando o atual sistema ainda menos livre, pois gerariam novos gastos apenas para cobrir novas despesas necessárias para fornecer voucher e contas previdenciárias privadas.)

Há vários outros exemplos atuais dessas ideias maléficas. Nos atuais círculos políticos, utiliza-se a palavra ‘privatização’ não para denotar uma completa retirada do governo de um determinado aspecto da vida social e econômica, mas meramente para denotar uma terceirização de atividades estatistas para algumas empresas privadas com boas conexões políticas.

O pior erro que os defensores da livre iniciativa podem cometer é vender nossas ideias como meios mais eficientes para se obter os fins desejados pelo estado. Em vários países ao redor do mundo, a ideia de capitalismo está desacreditada não porque já foi tentada e fracassou, mas simplesmente porque um falso modelo de capitalismo foi imposto pelas autoridades. Isso não quer dizer que tais países vejam o socialismo como uma alternativa, mas há neles uma procura em vão por uma mítica terceira via.

Não é necessário o governo fazer muito para distorcer completamente o mercado: basta um controle de preços em alguma área, um subsídio para um derrotado à custa de um vencedor, uma limitação ou restrição ou um favor especial. Todas essas medidas podem criar enormes problemas que acabam desacreditando o capitalismo por completo.

A única solução é abdicar

Qual seria a atitude correta a ser tomada por especialistas em políticas públicas e analistas do governo? A única coisa que o governo pode fazer bem feito (além de destruir a economia): não fazer nada. O papel apropriado para o governo seria simplesmente o de se retirar da sociedade, da cultura, da economia e de toda a política internacional. Deixe que tudo se governe por si só. O resultado não será um mundo perfeito, mas ao menos será um mundo que não poderá ser piorado pela intervenção do estado.

O livre mercado não é um arranjo que se resume a gerar lucros, produtividade e eficiência. O livre mercado não é apenas para gerar inovações e concorrência. O livre mercado diz respeito ao direito de indivíduos de tomarem decisões autônomas e de fazerem contratos voluntários, de buscarem uma vida que preencha seus sonhos, mesmo que tais sonhos não sejam aqueles aprovados pelos seus senhores governamentais.

Portanto, que ninguém se iluda com a crença de que é possível ter ambos; que liberdade e despotismo possam conviver pacificamente lado a lado, com o primeiro sendo imposto pelo último. Fazer uma transição do estatismo para a liberdade significa uma completa revolução na economia e na vida política, saindo de um sistema em que o estado e seus grupos de interesse dominam, para um sistema em que o poder estatal não tenha função alguma.

A liberdade não é uma política pública; ela não é um plano. Ela é o fim da própria política. Quem quiser tê-la, terá de agir menos como gerenciadores de burocracias e mais como Moisés.

Lew Rockwell é o chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.

Tradução de Leandro Roque

Você é Conservador(a)? O que é Conservadorismo?

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Publicado por Rafael Merlo em 10 Mar, 2013 – Conservadorismo, Destaque | 10 comments

Embora possamos identificar a presença de alguns valores conservadores na nossa sociedade, os conservadores brasileiros estão muito distantes do discurso político no país. Quase toda definição de “conservador” ou “conservadorismo” que encontramos na grande mídia tem sido propagada por quem tem motivos ideológicos de sobra para distorcer essas definições (a esmagadora maioria ligada ao pensamento de esquerda – políticos, cientistas sociais, educadores, editores, jornalistas, etc).

Portanto, qualquer um que queira responder seriamente as perguntas do título deste artigo deve fugir do senso comum e voltar seus olhos para onde existe alguma tradição no estudo do Conservadorismo – especialmente Reino Unido e Estados Unidos.

O Conservadorismo difere das correntes políticas por não possuir uma ideologia, ou seja, não conter um corpo doutrinário que deva ser levado às últimas consequências. Não há um autor central, nem um “livro sagrado” do Conservadorismo.

No entanto, o principal autor que se propôs a responder as perguntas deste artigo foi Russel Kirk. Como resultado de sua tese de doutorado, Kirk publicou o livro The Conservative Mind: from Burke to Eliot, em 1953. Nele, Kirk analisou os escritos dos principais autores conservadores entre os séculos XVIII e XX, em busca do núcleo comum que constitui o pensamento conservador.

Deixando claro não se tratar de uma lista rígida de dogmas, Kirk observou um conjunto de características quase sempre presentes nas opiniões dos conservadores. Sua principal publicação, especificamente sobre essa questão, é o artigo Ten Conservative Principles (tradução, Dez Princípios Conservadores).

Recomendamos a leitura do artigo original, bem como a leitura de uma versão condensada do livro The Conservative Mind, produzida pelo Alabama Policy Institute.

Abaixo, apresentamos uma adaptação de alguns dos princípios conservadores, para que o leitor possa compreender um pouco do pensamento conservador e também aferir quanto o Conservadorismo converge ou diverge de suas convicções pessoais.

Concordar com os princípios do Conservadorismo não implica em conflito com sua religião, raça, orientação ou gênero. Abraham Lincoln, Martin Luther King e Margaret Thatcher são exemplos de personalidades notáveis que aderiram a princípios conservadores, assim como existem diversos conservadores que são gays, ateus, etc.

Você é Conservador(a)? Abaixo, alguns pontos do pensamento Conservador:

Existe uma ordem moral transcendente e imutável que governa a sociedade, e que pode ser apreendida pelos homens através da experiência de várias gerações.

O conservador é guiado por um forte senso de certo e errado, que são conceitos absolutos. Não há espaço para o relativismo moral: para o conservador, o fim jamais justifica os meios.

O conservador acredita que a mudança é um meio necessário para a conservação e aprimoramento da ordem social.

Mas nem toda a mudança é para melhor. Mudanças precipitadas podem destruir a ordem social. O conservador adota a prudência diante das mudanças radicais, buscando entender suas consequências futuras acima de seus efeitos superficiais imediatos.

O conservador entende que os costumes e convenções, herdados das gerações passadas, passaram pelo teste do tempo: são o resultado de séculos de tentativa, reflexão e sacrifício. Por isso, devem balizar as mudanças na sociedade.

O conservador tem afeição pela diversidade da existência humana, em oposição à uniformidade e ao igualitarismo dos sistema radicais. Os conservadores não procuram forçar a uniformidade sobre a humanidade.

O conservador afirma a igualdade perante Deus e os tribunais. Qualquer outra tentativa de nivelamento leva à estagnação social ou a novas formas de desigualdades pelas mãos de tiranos.

Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita jamais poderá ser criada. Buscar uma utopia é terminar em desastre. O que podemos esperar é uma sociedade razoavelmente ordenada, justa e livre. Através de reformas prudentes, podemos preservar e aperfeiçoar a ordem social.

Ganhar e gastar não são os objetivos principais da existência humana, mas sim a construção de uma base econômica sólida para as pessoas, as famílias e a comunidade. Redistribuição de riquezas, através de taxas e outros meios, não é sinônimo de progresso econômico.

Liberdade e propriedade privada estão intrínsecamente ligadas. Sem a propriedade privada, o poder do Estado sobre os indivíduos é incontrolável.

O conservador é movido por um desejo de descentralização do poder, menor interferência governamental e maior liberdade individual.

O desastre do catolicismo liberal

As exigências do cristianismo não toleram a pusilanimidade nem a barganha com o depósito da fé

Quando o então Cardeal Joseph Ratzinger, num debate com o filósofo ateu Paolo Flores D’arcais, em 2000, mencionou a palavra tolerância numa explicação, não pôde deixar de notar o espanto da plateia e, até mesmo, do mediador do encontro. Reação previsível, se se levar em consideração a imagem negativa imputada ao futuro Bento XVI, devido ao seu trabalho na Congregação para Doutrina da Fé. É certo que, nos dias de hoje, em que a falsa tolerância foi elevada à categoria de virtude cardeal, qualquer movimento que sugira uma repreensão motivada por um erro é, apressadamente, tachado de intolerante. Daí a fama de cardealpanzer de Bento XVI que, como “colaborador da Verdade”, tinha consciência do seu dever de debelar o erro. A tolerância a qualquer custo é uma doença da mentalidade moderna, na qual conta mais uma pseudo harmonia e comunhão do que a verdade. E nesta seara, infelizmente, também se inserem muitos católicos.

Essa dificuldade nasce, sobretudo, da falta de clareza com que se tratam assuntos de delicada importância, incluindo a religião. Em nome do bem-estar e da paz, prefere-se adotar uma posição moderada, sem “paixões”, como declaram alguns, mesmo que isso custe um alto preço. Ora, a tolerância só tem sentido dentro de um contexto de amor à verdade e à justiça, não de pusilanimidade. Não é à toa que as casas de prostituição são popularmente conhecidas como casas de tolerância. Quando se coloca a tolerância como regra suprema do bem, não é estranho que apareçam na história câmaras de gás, gulags e paredões. Ou então, mais condizente com o momento atual, clínicas de aborto e embriões congelados para pesquisa.

Deve-se separar pecado e pecador, ser tolerante com a pessoa, mas nunca com o mal. E, em certos casos, a tolerância exige, sim, uma justa pena, pois a disciplina também é uma forma nobre de amar. Se é verdade que Cristo mandou deixar que cresçam juntos joio e trigo, também não é menos verdade que ele tenha pego num chicote para expulsar os vendilhões do templo. No itinerário do amor cristão também está o zelo pelo bem integral – físico, moral e espiritual – do irmão que, muitas vezes, passa pela correção fraterna. Todavia, denunciou Bento XVI na sua mensagem para Quaresma de 2012, “parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sl 119/118, 68)”.

O respeito humano que impera em muitos ambientes católicos é um dos principais motivos da apostasia na Igreja. Uma vez que se abandona o sentido autêntico da fé, perde-se também a noção de bem e mal e, em última instância, a noção de verdade. Esse é o mal da propalada tolerância. Em termos mais duros, dizia o escritor Gustavo Corção sobre o esfriamento dos católicos no Brasil, “na consideração das causas o número um, a triste primazia, deve ser dada ao catolicismo liberal, ao catolicismo complacente, ao catolicismo tolerante, ao catolicismo que traz a Igreja a moleza, a falta de caráter, a esperteza, que são os vícios de nossas virtudes, o modo brasileiro de deteriorar o que seria bondade e magnanimidade se lograsse retificação e purificação”. Como remédio, aconselhava Corção, “nós, aqui no Brasil, precisamos aprender a dura e viril arte de não transigir(…) E para isso temos de lutar em duas grandes frentes: na formação moral, e na difusão da Doutrina”.

Não é católico quem não professa o credo dos apóstolos. O coração do fiel deve ser universal o suficiente para acolher todo o depósito da fé e, com ele, todas a suas exigências. E isso requer intolerância. Sim, a intolerância para dizer não aos pruridos de novidades que afastam da sã doutrina, para dizer não à ditadura do relativismo. A santa intrasigência dos mártires para responder sim ao que é sim, e não ao que é não. A ousadia para respeitar a liberdade do outro, sem, contudo, fazer descontos em questões não negociáveis. Em suma, ser intolerante o suficiente para remar contra a maré de mentiras e falsas promessas, como pediu o Papa Francisco aos jovens da JMJ-Rio 2013, e buscar em Cristo a única e verdadeira felicidade, “em que se revela a origem e a consumação da história” (Cf. Lumen Fidei, 35).

Por: Equipe Christo Nihil Praeponere