André Lara Resende explica a bolha imobiliária em 3 frases.

Quanto vale o sapato que está na vitrine do shopping?
Quanto vale aquele vestido que sua esposa lhe pediu de presente?
Quanto vale aquele fusca encostado em sua garagem?

Quanto vale uma garrafa d’água?
Quanto vale 1 hora de kilowatt de energia?

E quanto vale o seu apartamento?

Tais perguntas parecem simples, não é?

Apenas parecem.

Tudo depende…..

É claro que uma parcela depende do custo mais margem…….mas, uma outra parcela, não.

Existe uma parcela no preço final que está rigorosamente ligada a uma questão subjetiva.

E dentro dessa questão subjetiva podemos encaixar a seguinte variável :

“Expectativa”

Se todos tivessem a mesma informação de que condições adversas comprometeriam a quantidade de “água” no planeta Terra, ou seja, que o Planeta Terra poderia virar um grande deserto, ainda que momentaneamente, qual o preço que você estaria disposto a pagar por 1 garrafa d’água?

Não estamos apenas explicitando uma relação de “oferta-demanda”, estamos explicitando também uma relação de “expectativa”……….”condições adversas” poderiam comprometer a quantidade de água disponível no Planeta Terra.

O mesmo podemos falar da energia…….basta apenas mudar o “componente”…..vamos lá…

Se todos tivessem a mesma informação de que condições adversas comprometeriam a quantidade de “energia” no planeta Terra, qual o preço que você estaria disposto a pagar pelo “kilowatt-hora?

A “expectativa” envolvida e ligada, direta ou indiretamente, ao “produto” interfere, sobremaneira, em seu “valor”.

Pense num pintor desconhecido…….qual o “valor” de seu quadro?

Agora suponhamos que tal pintor, de uma hora pra outra, seja descoberto por um “especialista das artes”. Em dado instante, tal “especialista” sugere em círculos reservados que o até então desconhecido pintor é uma grande promessa.

Tal informação “corre pra dentro” do sistema……..há um súbito aumento de expectativa em relação a qualidade de seus quadros…..agora, as pessoas estão mais dispostas a comprar seus quadros….

Mais………as pessoas estão dispostas a pagar mais e mais pelos seus quadros….e os preços vão atingindo patamares inimagináveis em tempos passados……

Na “Economia Real” não há muita diferença……..

Quando uma economia está bem, há toda uma expectativa positiva “pairando no ar”……

As pessoas estão mais dispostas a pagar mais pelas coisas…….

E é dentro desse espectro que trazemos à tona a “figura da bolha de ativos”…..

Uma “bolha de ativos” é a exacerbação das expectativas sobre um determinado ativo……

Custo e margens de lucro estão ali no preço do ativo…….a expectativa subjacente ao preço final está muitas, mas muitas vezes superior a “custo mais margem”.

A prmeira grande bolha de ativos conhecida no mundo foi a “Bolha das Tulipas”, no início do século XVII.

A “Tulipa” era nada mais do que “uma flor”…..simples assim…..no entanto, ela foi crescendo no “gosto” da sociedade holandesa…..a expectativa sobre aquela “simples flor” foi aumentando rapidamente, transformando-a em artigo de luxo e símbolo de status.

A consequência foi a disparada do preço da tulipa; apenas pela “simples expectativa” de que ela lhe trouxesse “status”, assim como a possibilidade de ter um “artigo de luxo” em casa.

Os preços da tulipa cresceram exponencialmente….criou-se a “Bolha das Tulipas”…….como não há “bolha que dure pra sempre”, em determinado momento, a tal procura, a “expectativa” acerca da tulipa arrefeceu-se; e a bolha estourou com a queda abrupta e avassaladora de seu preço.

Abaixo, o gráfico mostra o avanço da “Bolha das Tulipas” e seu estouro:

bolha das tulipasbolha das tulipas

A tal da “expectativa” explicada sucintamente acima foi resgatada brilhantemente pelo economista André Lara Resende em seu artigo publicado ontem, 07-02-2015, no jornal “O Estado de São Paulo”.

O Economista André Lara Resende foi um dos principais formuladores do Plano Real, junto com o economista Pérsio Arida, hoje sócio no BTG Pactual.

Pra quem não sabe, o rascunho do Plano Real já fora escrito anos antes, mais precisamente em 1984.

Sim.

Em 1984, um paper chamado “LARIDA” havia circulado no meio acadêmico.

O paper fora escrito por “2 mãos”, a de Persio Arida e André Lara Resende.

André Lara e Pérsio já rascunhavam naquele texto a idéia de 1 moeda virtual que circularia em paralelo a moeda “oficial” para conter uma inflação “em descontrole”, ou efetivamente uma “hiperinflação”.

Isso foi a essência do Plano Real.

Afinal, antes do “real” de fato se tornar a moeda do Brasil, nós tivemos 2 moedas em circulação; uma “virtual”, a URV (Unidade Real de Valor), e o “cruzeiro real”.

2 brilhantes economistas a quem o Brasil deve muito…….

O artigo mencionado é totalmente direcionado para a atual grave situação político-econômica pela qual passa o Brasil.

No entanto, talvez de forma involuntária, André Lara tangenciou a variável “EXPECTATIVA”.

Ao tangenciá-la, acabou, por tabela, tangenciando uma das mais intrigadas questões econômicas, “o valor das coisas”, “o valor dos ativos”.

E ao tangenciar em apenas 3 frases tal questão, acabou por me fazer, nos fazer, mais uma vez, refletir sobre um dos assuntos mais polêmicos do Brasil de hoje, a “Bolha Imobiliária”.

Primeiro, vamos a passagem do artigo a que me refiro:

“O valor dos ativos, das empresas e dos imóveis, depende das expectativas. Com as expectativas favoráveis, o aumento da riqueza foi muito superior ao crescimento da renda. A reversão levará a uma correspondente queda da riqueza”.

Quem leu o texto completo, percebe que seu foco é outro, mas nesse trecho, fica claro que André Lara é muito consciente em atrelar expectativas favoráveis com o valor dos ativos e, mais especificamente, com o valor dos imóveis.

Ora…….

O que vimos no Brasil de 2004 até 2011-2012?

Vimos expectativas favoráveis……a Crise Americana de 2008 interrompeu por um breve momento tais expectativas, porém apenas por um breve momento.

Todo o período foi marcado por uma “áurea positiva”…..

Os arranjos e arrumações feitas pelo Plano Real e ao longo de 1994-2002, durante a gestão do Presidente Fernando Henrique Cardoso, como estabilidade monetária, credibilidade fiscal, câmbio flutuante, privatizações, davam o pano de fundo para a dinâmica positiva.

Tal pano de fundo se somava a um dos maiores boons das commodities do século, empurrando o preço de nossa principal pauta de exportações, o minério de ferro, para a estratosfera.

A essa colagem , todo um “resto” se atraía, formando um quadro positivo que permeava toda a economia brasileira.

Governo afrouxava as despesas, bancos afrouxavam o crédito, os empresários empregavam, enfim, AS EXPECTATIVAS eram as mais altas. Nada era capaz de diminuir o entusiasmo dos agentes econômicos.

Dentro dessa dinâmica, as tais expectativas começam a afetar “negativamente” os preços dos ativos….

Ao “custo mais margem” dos produtos somavam-se “expectativas” exageradamente altas.

E assim, produzimos uma das maios espetaculares bolhas imobiliárias do mundo.

Somente nas 2 principais capitais do país, São Paulo e Rio de Janeiro, os preços dos imóveis subiram de 3 a 4 vezes em média entre 2008 e 2015.

As “expectativas favoráveis” estão diminuindo…..

A Europa continua em marcha muito lenta……..
A China não é mais a mesma de 5 anos atrás e não mais é capaz de impulsionar e sustentar a Bolha de Commodities.

Aliás, essa Bolha já estourou…..Petróleo e Minério de ferro, entre outras commodities, já perderam mais de 50% de seus valores em menos de 1 ano.

A Redução das expectativas se alastra pelo Brasil……

Bancos começam a reduzir o crédito…..começam a restringir o crédito dentro da Economia….

Os empresários, industriais em particular, têm perdido a confiança da Economia numa velocidade alta. E isso afetará, mais cedo ou mais tarde, o emprego do cidadão.

Enfim………..

“Expectativas” serão cada vez “menos favoráveis”…….

E qual o “valor das coisas” num ambiente “menos favorável”?

Tudo é REDIMENSIONADO……..os ativos são redimensionados…….por bem ou por mal……

“Fomos ricos” por um tempo……….

Mas a renda não aumentou……….o aumento de riqueza se deu por uma “expectativa favorável”….

Sinto muito……não mais a teremos por um bom tempo…….

Portanto…….os preços dos imóveis terão que “voltar pra renda”……..o ponto a que chegou era ilusório…..

Era “preço + margem + muita expectativa favorável….mas muita expectativa favorável”.

Não poderia terminar o texto sem antes voltar ao trecho do artigo de André Lara Resende…..

Uma forma de fechar o “raciocínio”, de lembrar que não produzimos “RIQUEZA” sem RENDA.

Uma forma de reverenciar uma das mais mentes mais brilhantes e criativas que o Brasil produziu no universo econômico:

“O valor dos ativos, das empresas e dos imóveis, depende das expectativas. Com as expectativas favoráveis, o aumento da riqueza foi muito superior ao crescimento da renda. A reversão levará a uma correspondente queda da riqueza”(André Lara Resende).

PS: O economista Eduardo Giannetti da Fonseca também tangencia de uma forma igualmente brilhante a variável “expectativa” em seu Livro chamado “O Valor do Amanhã”, publicado originalmente em 2005 pela Companhia das Letras.

Poe Marcio Lemos, brInvesting.

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