Arquivo mensal: fevereiro 2015

Os sonhos dos politicos.

Inúmeros aspectos do comportamento humano, além da pouca compreensão da realidade, são fundamentais para a sobrevivência dos canalhas na política. Vamos analisar alguns deles.

Os impostos e as cotas de importação aumentam o preço do açúcar. Michael Wohlgenant e Vincent H. Smith, no artigo “Bitter Sweet: How Big Sugar Robs You” (The American, fevereiro 2012), dizem que as restrições à importação de açúcar custam à economia, em média, mais de três bilhões de dólares por ano, com a elevação dos preços dos alimentos. Esse é o lado do custo. Por outro lado, os 40 mil americanos que trabalham na indústria açucareira são beneficiados pelas restrições à importação, porque aumentam os preços do açúcar e proporcionam salários e lucros maiores. Alguém poderia perguntar, com toda razão, “como é possível que tão poucos imponham tamanho custo sobre os outros 312 milhões de americanos”?

Isso é facilmente explicável por um fenômeno ao qual os economistas se referem como benefícios concentrados e custos dispersos. Vale a pena para os envolvidos com a indústria açucareira fazer lobby no congresso e contribuir com campanhas políticas para ganhar alguns votos em favor das restrições sobre o açúcar importado. Eles recebem bilhões a mais em lucros e salários. Esse é o lado de beneficiados. O custo é o preço que os 312 milhões de consumidores americanos pagam pelo açúcar, aumentando os custos anuais dos alimentos em 9 dólares por pessoa. Os membros do congresso não têm problemas para impor esse custo, pois sabem que poucos americanos encarariam o desafio de tentar derrotar um deputado cujas ações custaram à sua família 40 ou 50 dólares por ano em açúcar. É mais barato simplesmente pagarmos mais.

Os impostos sobre o açúcar e as cotas de importação produzem efeitos que vão além do simples aumento dos preços dos alimentos. Chicago era a capital dos doces dos Estados Unidos. Nos anos 1970, os fabricantes de doces de Chicago empregavam 15 mil pessoas. Agora empregam apenas 8 mil e o número vem caindo. A Brach empregava 2300 pessoas; agora a maior parte desses empregos está no México. A Ferrara Pan Candy também mudou a sua fábrica para o México. Sim, os salários são mais baixos por lá, mas eles não são o único fator que levou as fábricas de doces a deixarem os Estados Unidos. O custo do açúcar é um fator muito importante e o preço do açúcar no México é uma fração (30 a 50%) do preço do açúcar nos Estados Unidos. Depois de 90 anos, a Life Savers se mudou para o Canadá. Os salários canadenses são próximos dos americanos, mas o custo anual do açúcar para a Life Savers é US$ 10 milhões menor.

A maioria dos americanos é decente e se importa de verdade com o bem estar de seus compatriotas. Poucas coisas criam tantas oportunidades para manipuladores egoístas e políticos estelionatários explorarem esse senso de decência quanto os salários dos pobres. Gabe Zaldivar, em um artigo entitulado “Dallas Cowboys Reportedly Involved in Sweatshop Exploitation” (Bleacher Report, janeiro 2012), adverte, “antes de você colocar um casaco ou um cachecol adornado com o escudo do “America’s Team”, lembre-se de onde eles vieram. Talvez você prefira ficar com frio.” Os Dallas Cowboys compram parte de sua linha esportiva de fábricas em Phnom Pehn, no Camboja, onde mulheres como Kol Malay, que é citada no artigo, ganham apenas 100 dólares por mês. Com um salário desses, ela pode pagar por um apartamento do tamanho do banheiro de uma casa americana. Zaldivar lembra que a Nike e outras gigantes esportivas sofreram duras críticas no passado por fabricarem roupas em sweatshops e em “ambientes de trabalho que flagrantemente violam os direitos humanos.”

Acho que é desnecessário dizer que Kol Malay não trabalharia por 100 dólares por mês se ela houvesse outro emprego que lhe pagasse mais. E será que a situação de Kol Malay estaria melhor se o Dallas Cowboys fosse forçado a fabricar os seus artigos nos Estados Unidos ao invés de em Phnom Pehn? Eu acho que estaria pior. Você pergunta: “e quem estaria melhor nesse caso?” Os trabalhadores americanos. Talvez isso explique porque os sindicatos americanos são grandes apoiadores de um salário mínimo obrigatório a ser pago pelas companhias americanas nos países do terceiro mundo. É loucura acreditar que os sindicatos americanos estão preocupados com o bem estar de pessoas como Kol Malay.

Desigualdade de renda

O movimento Occupy Wall Street mostra que os americanos podem ser facilmente seduzidos por algumas alegações sobre desigualdade de renda. Isso ajuda a explicar a popularidade da redistribuição e os apelos para que os ricos “devolvam” algo à sociedade. Para os portadores de determinada visão de mundo, essa ideia faria sentido.

Mas suponhamos que exista uma pilha gigante de dinheiro e que ela devesse ser dividida igualmente entre todos os americanos. A razão pela qual algumas pessoas teriam mais dinheiro que outras seria porque tinham chegado primeiro à pilha e gananciosamente se apropriado de uma fatia maior do que lhe cabia. Sendo esse o caso, a justiça deveria fazer com que aqueles que ficaram com uma fatia grande demais, devolvessem parte dela, e caso não o fizessem voluntariamente, o congresso deveria confiscar os seus ganhos ilícitos e retorná-los aos seus legítimos proprietários.

Ou talvez a renda pudesse ser dividida por um distribuidor de dólares. A razão pela qual algumas pessoas teriam mais dólares do que outras seria porque que o distribuidor é racista, sexista, multinacionalista ou conservador. Para aqueles que receberam uma quantidade injusta de dólares do distribuidor, a única alternativa seria a redistribuição do dinheiro. Se isso não acontecesse voluntariamente, o congresso deveria enviar o IRS (Receita Federal dos EUA) para confiscar os ganhos injustos.

Os sãos entre nós reconhecerão que em uma sociedade livre, a renda não é coletada em uma pilha ou espalhada por um distribuidor; na maioria das vezes, ela é obtida pela satisfação das necessidades de outras pessoas. Quanto maior for a sua capacidade de exercer essa função, maior será a parcela da produção do outro que ele receberá. Essa parcela é representada pelos dólares que recebe.

Certificados de Desempenho

Digamos que eu corte a grama da sua casa e pelo trabalho você me ofereça 20 dólares. Eu vou ao supermercado e peço, “deem-me dois quilos de carne e seis cervejas que outras pessoas produziram”. Na realidade, o funcionário do supermercado me pergunta “Williams, você está pedindo para ser servido por outra pessoa, mas você a serviu?”. Eu respondo: “sim”. Ele me diz: “então prove”. Então eu tiro do meu bolso os 20 dólares que ganhei por ter cortado a grama. Nós podemos pensar nesses 20 dólares como “certificados de desempenho”: eles são a prova de que eu servi outra pessoa. E isso não seria nada diferente caso eu fosse um ortopedista com muitos clientes, que ganhasse US$ 500 mil por ano servindo outras pessoas.

A propósito, tendo cortado a grama da casa de alguém ou cuidado de sua fíbula fraturada, o que mais eu poderia dever a ele ou a qualquer outra pessoa? Quais são os argumentos em favor de forçar alguém a doar algo em retorno? É claro que a questão seria completamente diferente caso alguém desejasse fazer caridade.

Contraste a moralidade de esperar que alguém tenha servido à outra pessoa para ter direito a algo que ela produz, com o governo, onde basta que o congresso diga “você não precisa servir a ninguém para ter direito ao que ela produz. Nós vamos tomar o que ela produzir para lhe entregar. Basta que você vote em mim”.

Não é complicado entender como ainda somos enganados por charlatães, mas esse é um processo que precisa ser sempre explicado.

Por Walter Williams.

André Lara Resende explica a bolha imobiliária em 3 frases.

Quanto vale o sapato que está na vitrine do shopping?
Quanto vale aquele vestido que sua esposa lhe pediu de presente?
Quanto vale aquele fusca encostado em sua garagem?

Quanto vale uma garrafa d’água?
Quanto vale 1 hora de kilowatt de energia?

E quanto vale o seu apartamento?

Tais perguntas parecem simples, não é?

Apenas parecem.

Tudo depende…..

É claro que uma parcela depende do custo mais margem…….mas, uma outra parcela, não.

Existe uma parcela no preço final que está rigorosamente ligada a uma questão subjetiva.

E dentro dessa questão subjetiva podemos encaixar a seguinte variável :

“Expectativa”

Se todos tivessem a mesma informação de que condições adversas comprometeriam a quantidade de “água” no planeta Terra, ou seja, que o Planeta Terra poderia virar um grande deserto, ainda que momentaneamente, qual o preço que você estaria disposto a pagar por 1 garrafa d’água?

Não estamos apenas explicitando uma relação de “oferta-demanda”, estamos explicitando também uma relação de “expectativa”……….”condições adversas” poderiam comprometer a quantidade de água disponível no Planeta Terra.

O mesmo podemos falar da energia…….basta apenas mudar o “componente”…..vamos lá…

Se todos tivessem a mesma informação de que condições adversas comprometeriam a quantidade de “energia” no planeta Terra, qual o preço que você estaria disposto a pagar pelo “kilowatt-hora?

A “expectativa” envolvida e ligada, direta ou indiretamente, ao “produto” interfere, sobremaneira, em seu “valor”.

Pense num pintor desconhecido…….qual o “valor” de seu quadro?

Agora suponhamos que tal pintor, de uma hora pra outra, seja descoberto por um “especialista das artes”. Em dado instante, tal “especialista” sugere em círculos reservados que o até então desconhecido pintor é uma grande promessa.

Tal informação “corre pra dentro” do sistema……..há um súbito aumento de expectativa em relação a qualidade de seus quadros…..agora, as pessoas estão mais dispostas a comprar seus quadros….

Mais………as pessoas estão dispostas a pagar mais e mais pelos seus quadros….e os preços vão atingindo patamares inimagináveis em tempos passados……

Na “Economia Real” não há muita diferença……..

Quando uma economia está bem, há toda uma expectativa positiva “pairando no ar”……

As pessoas estão mais dispostas a pagar mais pelas coisas…….

E é dentro desse espectro que trazemos à tona a “figura da bolha de ativos”…..

Uma “bolha de ativos” é a exacerbação das expectativas sobre um determinado ativo……

Custo e margens de lucro estão ali no preço do ativo…….a expectativa subjacente ao preço final está muitas, mas muitas vezes superior a “custo mais margem”.

A prmeira grande bolha de ativos conhecida no mundo foi a “Bolha das Tulipas”, no início do século XVII.

A “Tulipa” era nada mais do que “uma flor”…..simples assim…..no entanto, ela foi crescendo no “gosto” da sociedade holandesa…..a expectativa sobre aquela “simples flor” foi aumentando rapidamente, transformando-a em artigo de luxo e símbolo de status.

A consequência foi a disparada do preço da tulipa; apenas pela “simples expectativa” de que ela lhe trouxesse “status”, assim como a possibilidade de ter um “artigo de luxo” em casa.

Os preços da tulipa cresceram exponencialmente….criou-se a “Bolha das Tulipas”…….como não há “bolha que dure pra sempre”, em determinado momento, a tal procura, a “expectativa” acerca da tulipa arrefeceu-se; e a bolha estourou com a queda abrupta e avassaladora de seu preço.

Abaixo, o gráfico mostra o avanço da “Bolha das Tulipas” e seu estouro:

bolha das tulipasbolha das tulipas

A tal da “expectativa” explicada sucintamente acima foi resgatada brilhantemente pelo economista André Lara Resende em seu artigo publicado ontem, 07-02-2015, no jornal “O Estado de São Paulo”.

O Economista André Lara Resende foi um dos principais formuladores do Plano Real, junto com o economista Pérsio Arida, hoje sócio no BTG Pactual.

Pra quem não sabe, o rascunho do Plano Real já fora escrito anos antes, mais precisamente em 1984.

Sim.

Em 1984, um paper chamado “LARIDA” havia circulado no meio acadêmico.

O paper fora escrito por “2 mãos”, a de Persio Arida e André Lara Resende.

André Lara e Pérsio já rascunhavam naquele texto a idéia de 1 moeda virtual que circularia em paralelo a moeda “oficial” para conter uma inflação “em descontrole”, ou efetivamente uma “hiperinflação”.

Isso foi a essência do Plano Real.

Afinal, antes do “real” de fato se tornar a moeda do Brasil, nós tivemos 2 moedas em circulação; uma “virtual”, a URV (Unidade Real de Valor), e o “cruzeiro real”.

2 brilhantes economistas a quem o Brasil deve muito…….

O artigo mencionado é totalmente direcionado para a atual grave situação político-econômica pela qual passa o Brasil.

No entanto, talvez de forma involuntária, André Lara tangenciou a variável “EXPECTATIVA”.

Ao tangenciá-la, acabou, por tabela, tangenciando uma das mais intrigadas questões econômicas, “o valor das coisas”, “o valor dos ativos”.

E ao tangenciar em apenas 3 frases tal questão, acabou por me fazer, nos fazer, mais uma vez, refletir sobre um dos assuntos mais polêmicos do Brasil de hoje, a “Bolha Imobiliária”.

Primeiro, vamos a passagem do artigo a que me refiro:

“O valor dos ativos, das empresas e dos imóveis, depende das expectativas. Com as expectativas favoráveis, o aumento da riqueza foi muito superior ao crescimento da renda. A reversão levará a uma correspondente queda da riqueza”.

Quem leu o texto completo, percebe que seu foco é outro, mas nesse trecho, fica claro que André Lara é muito consciente em atrelar expectativas favoráveis com o valor dos ativos e, mais especificamente, com o valor dos imóveis.

Ora…….

O que vimos no Brasil de 2004 até 2011-2012?

Vimos expectativas favoráveis……a Crise Americana de 2008 interrompeu por um breve momento tais expectativas, porém apenas por um breve momento.

Todo o período foi marcado por uma “áurea positiva”…..

Os arranjos e arrumações feitas pelo Plano Real e ao longo de 1994-2002, durante a gestão do Presidente Fernando Henrique Cardoso, como estabilidade monetária, credibilidade fiscal, câmbio flutuante, privatizações, davam o pano de fundo para a dinâmica positiva.

Tal pano de fundo se somava a um dos maiores boons das commodities do século, empurrando o preço de nossa principal pauta de exportações, o minério de ferro, para a estratosfera.

A essa colagem , todo um “resto” se atraía, formando um quadro positivo que permeava toda a economia brasileira.

Governo afrouxava as despesas, bancos afrouxavam o crédito, os empresários empregavam, enfim, AS EXPECTATIVAS eram as mais altas. Nada era capaz de diminuir o entusiasmo dos agentes econômicos.

Dentro dessa dinâmica, as tais expectativas começam a afetar “negativamente” os preços dos ativos….

Ao “custo mais margem” dos produtos somavam-se “expectativas” exageradamente altas.

E assim, produzimos uma das maios espetaculares bolhas imobiliárias do mundo.

Somente nas 2 principais capitais do país, São Paulo e Rio de Janeiro, os preços dos imóveis subiram de 3 a 4 vezes em média entre 2008 e 2015.

As “expectativas favoráveis” estão diminuindo…..

A Europa continua em marcha muito lenta……..
A China não é mais a mesma de 5 anos atrás e não mais é capaz de impulsionar e sustentar a Bolha de Commodities.

Aliás, essa Bolha já estourou…..Petróleo e Minério de ferro, entre outras commodities, já perderam mais de 50% de seus valores em menos de 1 ano.

A Redução das expectativas se alastra pelo Brasil……

Bancos começam a reduzir o crédito…..começam a restringir o crédito dentro da Economia….

Os empresários, industriais em particular, têm perdido a confiança da Economia numa velocidade alta. E isso afetará, mais cedo ou mais tarde, o emprego do cidadão.

Enfim………..

“Expectativas” serão cada vez “menos favoráveis”…….

E qual o “valor das coisas” num ambiente “menos favorável”?

Tudo é REDIMENSIONADO……..os ativos são redimensionados…….por bem ou por mal……

“Fomos ricos” por um tempo……….

Mas a renda não aumentou……….o aumento de riqueza se deu por uma “expectativa favorável”….

Sinto muito……não mais a teremos por um bom tempo…….

Portanto…….os preços dos imóveis terão que “voltar pra renda”……..o ponto a que chegou era ilusório…..

Era “preço + margem + muita expectativa favorável….mas muita expectativa favorável”.

Não poderia terminar o texto sem antes voltar ao trecho do artigo de André Lara Resende…..

Uma forma de fechar o “raciocínio”, de lembrar que não produzimos “RIQUEZA” sem RENDA.

Uma forma de reverenciar uma das mais mentes mais brilhantes e criativas que o Brasil produziu no universo econômico:

“O valor dos ativos, das empresas e dos imóveis, depende das expectativas. Com as expectativas favoráveis, o aumento da riqueza foi muito superior ao crescimento da renda. A reversão levará a uma correspondente queda da riqueza”(André Lara Resende).

PS: O economista Eduardo Giannetti da Fonseca também tangencia de uma forma igualmente brilhante a variável “expectativa” em seu Livro chamado “O Valor do Amanhã”, publicado originalmente em 2005 pela Companhia das Letras.

Poe Marcio Lemos, brInvesting.